Quase amor

De PRISCA AGUSTONI.

Virão outros acidentes, imagino. Parecidos, se não piores.

Aproximei minha boca da sua. E fechei os olhos, para que suas pupilas abertas não me engolissem para o lugar onde ele se encontrava.

Executei tudo sem erros, de modo que, após poucos minutos, tudo tinha cumprido as melhores expectativas.

Conseguira dar-lhe um pouco dessa existência trêmula que levo. Pois ele voltou à vida, com algo meu alojado em seu corpo. Minha alma, diriam os antigos filósofos.

Em verdade, minha calma foi-se embora naquele dia, ao invadir sua porosidade, ao invocar para nós dois a vida. O esforço foi anterior ao caos, mas o que sobrou foi um estranho desgosto de mim, uma súbita visão da condição humana exposta sem pudor nem rêmoras, jogada na orla da calçada.

E agora me assombra. Não essa imagem, a do corpo deitado no chão, o ombro levemente virado para a direita abraçando o ar. Mas outra coisa, que se colou à minha boca e me fecha a garganta.

Alguns dizem que é normal, porque a primeira vez é inesquecível, e vem carregada de fortes emoções.

Entretanto, apesar de estar preparado e de saber que é isso o que pretendo fazer na vida, não podia imaginar que o sabor me violaria com tamanha sutileza, dias depois.

Aquele homem roubou-me o chão, e estou a me precipitar nas suas pupilas sem freios.

Soube que ele quis me reencontrar, disse que tinha uma dívida grande comigo. É. Mas eu prefiro que seja a vida a pagar-me, se for necessário.

Não quero vê-lo, com certeza não teria coragem de encarar o rosto que se tornou o espantalho do meu sono. E fujo do seu sabor como da pior das epidemias.

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