A máquina

De LÚCIA BETTENCOURT.

.

Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campainha?
E.Q.

Era uma caixa pequena e preta, e escondia segredos, como as dos aviões. Uma caixa leve, diminuta e escura. Seu principal segredo se resumia a um botão, bem ali onde se cruzavam as diagonais que um geômetra poderia traçar.

Maurício era o único possuidor da caixa, portanto, seria dele o gênio que ali habitava. Um gênio que poderia ser libertado com o suave pressionar de um botão. Um pequeno botão, como o de uma campainha, e que o tentava na penumbra do quarto silencioso.

Maurício bem sabia que aquele gênio não pertencia ao século XIX. Ele não lhe apareceria de chapéu alto, burguesmente vestido. Era um gênio moderno, que poderia marcar sua presença com sua ausência. Ele não apareceria, e pronto. Mas nem por isso deixaria de obedecer ao comando do botão, um vulgar botão de plástico, sem nenhuma especificidade. Não era dourado, não era um botão eletrônico, encapado em borrachas, com superfície sensível, reagindo a qualquer impulso. Era um botão mecânico, de plástico, da mesma cor da caixa, exigindo firmeza na pressão dos dedos que o tocassem. Um botão que armaria uma engrenagem, protegida pela caixa, negra e soturna.

O gênio não tinha nada a ver com o botão, nem com a engrenagem que despertaria ao toque. Não era ali que o mistério se encontrava, no milagre mecânico de roldanas e de giros, de alavancas e de válvulas. O gênio era despertado pelo botão, um pouco bambo, mas definitivo. Impulsos elétricos percorreriam as entranhas da caixa, engrenagens se encaixariam e girariam sobre seus eixos, minúsculas comportas se abririam e talvez fosse nesse instante que o gênio começasse a agir. Um líquido que se espessaria ao contato com outro líquido. Naquelas artérias e veias que se misturavam dentro da caixa, um líquido percolando, desvendando os labirintos. Um gênio químico, existindo apenas no equilíbrio perfeito das gotas mescladas.

Maurício enxugou a testa com a mão trêmula. Queria tocar o botão, experimentá-lo levemente, mas sabia que a caixa exigia mãos decididas, resolutas. Seus dedos trêmulos apalparam a face pálida. Ele se sentia pálido, mesmo na penumbra do quarto, sem espelhos que lhe devolvessem o olhar mortiço. Sua pele estava fria e viscosa, seus cabelos rebelavam-se sobre a testa vincada. De seus braços finos saía um tubo, que se bifurcava em outros dois. Presas a essas serpentinas, alguns clipes de plástico colorido, como confetes, verdes e azuis pareciam dançar. Maurício contemplou o braço fraco, descorado. Olhou o ponto por onde entrava um cateter insidioso em suas veias. Na pele muito branca acompanhou o desenho das veias azuis, quase verdes, quietas; das artérias anêmicas, pulsantes. Depois olhou para a máquina, a caixa preta com seu botão hipnótico, que aguardava a pressão de seus dedos. Ajeitando-se na cama, contemplou as mãos, perguntando-se que dedo levaria a cabo a missão. Qual deles teria que prestar conta? Ou seria ele inteiro o responsável? Ou apenas aquelas células que cresciam e se multiplicavam, fora de controle, e invadiam seus órgãos e lhe dificultavam a respiração, a deglutição, a visão. Aquelas células conjuradas numa rebelião, que atentavam contra o prazer da vida, que impediam as alegrias e se haviam transformado em centro de toda a dor?

Maurício acariciou as bordas da máquina. Talvez não fosse preciso pressionar o botão. Se ele demorasse mais alguns minutos, uma face sorridente e apressada apareceria na fresta da porta e lhe daria a boa nova: uma vacina, uma nova pílula, ou um outro botão pressionado por um louco, terminando o mundo. Uma lágrima insuspeitada escorreu pela face intumescida, chegou até sua boca retorcida e ali secou.

As serpentinas se agitaram com o movimento que fez. Sentiu o coração disparar, um resto de instintivo medo. Mas a mão já alcançara o botão, seu indicador havia se posicionado corretamente, ali, no centro de tudo, onde as diagonais se cruzavam e tudo terminava num botão barato. A máquina permanecia silente, enigmática, expectante, guardando seu segredo. Dela também saíam serpentinas, sem confetes, sem cores, tubos vazios. Um chegava até ele, se entrançava nos dele, e traria para ele os segredos guardados naquela caixa preta. Somente um. Como num reverso nascimento, aquele cordão deveria atar-se e não se romper. Ele não estaria mais sozinho. Faria parte do segredo que a todos nos engole. Cabia a ele a decisão.

No corredor fortemente iluminado, o relógio movido a pilha continuava sua ronda. O ponteiro pulou mais um minuto e o mecanismo continuou sua contagem, outros sessenta segundos e mais um pulo. Não havia sinal de mudança. As pessoas continuavam suas tarefas, o tempo percorria seu caminho de sempre, a luz eventualmente se apagou. No corredor, quem poderia saber se aquela campainha tinha sido tocada?

.


%d blogueiros gostam disto: