Extensões: sons e hemorragia

De LEANDRO RESENDE.

Estava do outro lado da rua, olhado aleatoriamente. Abastecendo meu carro, no posto. Vinte reais, moço. Olhei nos olhos do cara, não parecia, não era gente. Era uma extensão da bomba de gasolina, piscando e se movendo. Suas vestes eram as mesmas que vestiam a bomba, azul e amarelo. Pele marrom, dentes pardos. Gasolina, moço.

A vida sem expressão deu a volta no carro, cuspiu no chão – talvez para disfarçar seu estado inanimado. Ele percebeu que percebi. Isso. Eu olhava e não via nada, pois estava dentro de mim o que eu olhava. Olhava reto – as minhas torturas internas. Eu estava assim.

Os carros cruzavam na minha frente. Pessoas, motos, carroças, outras carros, crianças.

Eu ouvia o barulho, mas estava cego.

Era um liquidificador de sons, de imagens.

O posto, os carros, as carroças, as pessoas. Eu.

E o barulho do jato de gasolina saindo da bomba, entrando no carro, batendo no fundo do tanque e o frentista, ainda incomodado comigo, fica coçando o saco para se humanizar. Seu olhar me fuzilava, tentando se explicar – como que querendo segurar todo saco com a mão cheia, puxar para cima e dizer bem alto: Eu não sou bomba, eu sou gente, porra!

Besteira dele.

Eu sei como são estes objetos e sei dessa insistência. Não vai desistir.

E vago o olhar. E dentro dele, reto, um barulho seco.

Uma pedrada na lata. Uma pedrada com a força, com toda e qualquer força, numa lata dura e segura, certa, monótona e inquebrável. Uma pedrada. Um barulho.

Um acidente. Bem na minha frente, cem ou duzentos metros, sei lá. Eu vi como se fosse mentira. Era uma cena. Um pedestre indeciso. Eu o via. Vai, não foi. E foi. No meio do caminho, a indecisão, parou. A moto vinha muito forte, rumo a seus últimos metros. Uma pedrada. Acelerado, fez a curva pensando em buscar a filha, no almoço, no patrão, na patroa. A moto vinha forte e aí, o barulho seco. Na lata. O pedestre parou, a moto desviou centímetros e ganhou novo rumo. Último rumo. De frente. A lata. Barulho seco.

O motorista do ônibus era só o motorista do ônibus. Não precisa falar nele. Ele ouviu o gemido do corpo, o mínimo e inesquecível som da fratura dos ossos e dos pneus rasgando-se no asfalto por metros, gritando sem conseguir parar, desesperados. Era isso. O motorista era passageiro. E ele, não quero falar dele, mas é bom ressaltar, esticou os braços, as mãos, como se fosse segurar… Muito estranho ele esticar os braços para tentar evitar o acidente.

Meu olhar saiu de mim.

Um zoom no som, explosão seca. Granada interna, todas as fraturas.

Pedrada de sangue nos meus olhos e nos ouvidos.

Eu vi o som, pela primeira vez.

Talvez ele nunca mais apareça para mim. Mas eu o vi, o corpo do som.

A moto, extensão da morte, caiu e rodou no asfalto. O jovem era funcionário de uma empresa de tintas ou de pintura. A sua caixa que ocupava a garupa, com variadas cores, explodiu (granada) junto, pintando o asfalto. Azul, branco, verde, roxo.

As latas giravam no chão. O corpo do jovem também movia um pouco. O ônibus tenta se mover, mas todos os presentes e ausente (o próprio jovem) gritaram ou imaginaram gritar com o motorista. “PÁÁÁÁRAAAAAAA… o cara tá aí embaixo…… ou…..” E ele parou.

Mas o jovem mesmo não estava lá. Tinha um pedaço de carne mole, vazando algumas gotas de sangues. Corri. Mas não sabia se corria lá ou de lá. Para ficar forte, lembrei do meu sobrinho Guilherme e eu fui lá, como se fosse o Superhomem. Pensei, vou levantar o ônibus com um braço, e com o outro eu dou um soco na cara do inimigo (e ele vai cair 10 metros dali ou desintegrar), e, ainda segurando o ônibus com a mão direita, pego o jovem e, voando – com aquela capa vermelha muito bonita e longa, vou levá-lo ao Hospital de Urgência, e aí o fotógrafo do jornal vai fazer um foto, e o cinegrafista também vai registrar o momento, e aí eu vou ficar indiferente porque eu sou o Superhomem, isso é normal.

Mas quando cheguei lá, fiquei imóvel.

O jovem também.

O motorista do ônibus e a moto, também.

Todos éramos a extensão daquela morte que entrava naquele corpo e o endurecia.

Um pouco de silêncio nasceu ali, de todos.

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Dava para ouvir o barulho da tinta mexendo no asfalto. E o azul marinho do chão era vestido de branco e azul, de verde, roxo, amarelo e marrom. As cores estavam se estabilizando quando a tinta vermelha do homem vazou mais forte, hemorragia, dando tons finais aquela memória que carrego. Um quadro de Salvador Dali foi se pintando automaticamente, uma tela nascia sozinha. O frentista parou do meu lado, também triste e chocado – com seus dentes pardos e jaleco azul e amarelo.

Passei a medir melhor a extensão da minha própria pequeneza.

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