A bela do Rio

De SOFIA STRANSKY.

Sou Sofia, há anos. E por mais que tente, ela volta, ardente. Um troço abominável, e…bem. Acontece. As mulheres que sejam razoáveis. Casem, tenham filhos, usem saia. Mas sabe que Sofia, por mais que me engane, não é assim. Este papo de que mulher precisa de estabilidade é um verdadeiro bagaço moral. Mulher precisa de coisas que até ela mesma duvida. Veja bem sua última fantasia ínfima: ir a uma boate desconhecida e dar de olhos vendados. Sem saber nada, só o sexo do sexo oposto. Sofia se anima e vai. A penumbra, o suor, o som alto a excitam. Quando tira a venda, o homem está ido, esquecido. Sofia gosta. Durante o dia, enquanto lava a louça, divaga. A água, o molhado quente. Sofia sai de novo. Tchau, meu bem, sim, Luis, preciso ir, mamãe doente não vive sem mim. Sofia não vive sem ela, Sofia. Andar superior, olhos vendados, agora mãos atadas. Ritmo. Este homem não está brincando, tem pressa, é bruto. Deve ter família, sua mulher deve estar pedindo coquetel de frutas no balcão bem embaixo de nossos pés que batem com força no chão. Ele querendo dizer para ela que ela é insuportavelmente insossa, que não pega nele direito. Sofia, mesmo sem ver, o olha, o domina. Esgotada, chega em casa. Oi, querido, acordado? Dorme como se tivesse se atrasado no supermercado. Sofia acorda, dá ordens pela casa. A empregada, mais um súdito. As camas primeiro, depois arrume o banheiro. Faça frango, na dúvida, não me pergunte. Sofia não agüenta seu dia, quer a que a noite chegue. Sai de casa, tchau meu bem, vou ver mamãe. Coitada, doente, mal se anima com nada, só com minhas visitas inesperadas. Somos parecidas. Sofia desvia, das ruas de Copa à Lapa. No início de um vício, o êxtase. Naquele momento, ela pode parar e ter aquilo arquivado, ou pode por tudo à risca. Mas o quê? Um marido esquisito, que muito religioso a vê como Santa Luzia. Um homem de princípios, de indícios. Para Sofia, nada disso se traduzia na cama. E ela, ardente incorrigível, sofria. Estavam casados há três anos, e por diversas vezes tentou convencer o marido a tirar o crucifixo de cima da cama. Mas nada. Sofia na Lapa, seus arcos, sua vida se espalha. Atravessa, cruza as ruas, seu rosto menos conhecido que sua clivagem. Ela já é dona. Na boate nivelada da Lapa, Sofia tem seu canto escuro atrás de uma pilha de cadeiras. Olhos vendados, os homens já sabem aonde ir. Com o assédio, Sofia ganha um canto com quatro paredes, no alto das escadarias. Não é puta porque não cobra. Encanta, escraviza. A Bela do Rio. Vai pro quarto e espera. Olhos vendados, mãos atadas, e nua. Na espera do escuro. Vem um sujeito, depois outro. Sofia goza, mas não demonstra, é dura, inabalável, atada. E isto faz com que o sujeito volte e volte. Estranhamente sem remorso, há anos que seu marido não a come com louvor. Sofia então imagina o seu dia-dia. Seria um guardador de carros? Um alemão tarado? O contador? E quem, que repetidamente a visitava? Sabia, não porque o via, não porque o tocava, mas porque o sentia. Aquele membro quente vinha com suas veias, violência, sentimento. Durante o dia, sonhava com a liberdade da noite. Sofia em casa, recebe o telefonema. E Luis, o marido; quem era, querida? Nada. Mamãe, que está melhor, saiu do hospital. Sofia sofre. Sofia, sem poder sair à noite, adoece. De saudades constantes, cortantes, agudas. Pálida, triste e comovida com sua volta indesejada à própria casa. O crucifixo, as rezas antes de cada refeição eram de perder o apetite. E se tomassem seu lugar? Outra vendada? E aquele homem, que tanto a queria? Seu nome, outra vida, podia começar tudo de novo, 35 anos, não era tão velha assim. Sofia então volta a sorrir, seu marido vai viajar. Um mês no Canadá, trabalha com metalurgia. Ia ficar lá botando para gelar a sua frigidez. Sofia toma banho, se perfuma, de saltos, passa pelas ruas da Lapa. E lá, semana após semana, começa a sentir o mesmo enjôo de sua vida comum. Porque aquilo estava virando comum. Ela deixa de ir por uns dias. Em casa não está bom, a noite uma eternidade. Um telefonema da boate, uma súplica. Sofia, venha, venha porque tem um homem que é viciado em você, ele não sai daqui há três dias. Sofia nega. A voz insiste. Só uma única vez, depois tiramos ele daqui. Sofia concorda, dissimulada. Tá bem, desta vez, ele de olhos vendados. Sofia vai, seus planos: ver o limite do desejo daquele homem, aquele homem que há tempos a repetia. Não iria fazer nada, só iria ver o que ele faria, vendado, sem poder encostar nela. Nada dá mais prazer em Sofia do que o tesão de um homem. Estava escuro, Sofia ouvia sua respiração e sentia seu suor aumentando a umidade do ar. Dos seus passos ela desviava, calada. Ele andando atrás com as mãozinhas no ar. Sofia quer ver o homem, o tal que ofegava tão perto. Quer ver sua boca aberta de tesão. Sua incapacidade de ter fúria. Ela acende a luz. O homem se esconde atrás da cama. Vem cá. Eu quero ver você, quero tocar em você. O homem se abaixa mais. Sofia insiste. Sofia arranca a venda do sujeito molhado. O homem se vira. Luis?

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