A saia colorida

De PRISCA AGUSTONI.

Esqueceu por muito tempo a felicidade daqueles dias no exterior, quando saiu de casa para sobreviver ao destino.

Levou apenas uma mochila onde, entre as poucas roupas, havia uma saia laranja, com sóis pintados a batique. Saiu correndo, antes que alguém a amarrasse à cama.

Quando voltou, seis semanas depois, fizeram de tudo para que ela esquecesse. Roubaram-lhe o verão, jogaram no lixo as roupas que cheiravam a lençóis alheios. Cortaram-lhe o cabelo e confiscaram-lhe as palmeiras enfileiradas na orla da juventude.

Por causa de pressões, distraiu-se da saia, e o pior, daquela que se instalara nela : uma garota com ansiedades de mulher.

Porém, um dia, anos depois, algo imprevisto aconteceu.

O carteiro trouxe-lhe um envelope lacrado, sem remetente. Desconfiada, passou alguns minutos a observar a letra desconhecida no verso do envelope. Parecia trazer alguma má notícia, pela ausência total de signos de identificação. Finalmente foi até a cozinha, pegou a faca de lâmina mais fina e cortou a beirada do papel.

Ao abrir, ficou pasma. Porque no envelope havia uma fotografia daqueles dias de felicidade transcorridos no exterior. Nenhuma carta, nenhuma mensagem. Nada. Só uma fotografia que lhe chegava como um filho ilegítimo.

Um recado ilegível que não dava para ignorar.

No retrato ela sorria, dentro da saia laranja longa até os pés. E olhava com cumplicidade para o fotógrafo, quase imaginando que este poderia salvar-lhe a vida, anos depois.

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