O trailer de um filme de terror dos anos setenta

De ANDRÉ DE LEONES.

[UM]
Ana Maria disse que precisava mesmo parar em algum lugar para comer e ir ao banheiro. José não disse nada. Ela estava se segurando há horas, desde quando deixaram a cidade e ouviram as notícias pelo rádio e elas não eram nada boas. Seus nomes foram citados algumas vezes, mas ainda não havia (ou, pelo menos, não parecia haver) uma busca efetiva em curso; ainda teriam algumas horas de fuga livre e desimpedida. Ela permanecia quieta, como se evitasse até mesmo respirar. Uma não-presença no banco do carona. Não queria vê-lo puto, gritando com ela ou simplesmente querendo parar com tudo e se entregar. Ela queria continuar, seguir em frente, não importando onde aquela coisa toda fosse dar, desde que estivesse com ele; se calados ou falando pelos cotovelos, não importava. Mas a fome apertou e também a vontade de ir ao banheiro, e ela agüentou o quanto pôde até que: “Eu preciso mesmo dar uma parada”, repetiu. Ele não disse nada, mas entrou no primeiro posto que viram, estacionou diante do restaurante e desligou o carro. “A gente não pode ficar muito tempo, não”, ele disse antes que ela saísse do carro. “A gente não pode dar bandeira. Você entende?” Ana Maria já estava com a mão direita na maçaneta da porta, pressionando uma coxa com a outra, realmente necessitada de ir ao banheiro, mas ouviu o que ele disse com toda a atenção do mundo e sorriu, concordando com a cabeça. “Te espero no restaurante”, ele disse, afinal. Saíram do carro ao mesmo tempo e ela correu na direção dos banheiros, que ficavam na parte de fora do restaurante. No banheiro, ela adentrou um dos reservados, fechou a porta, abaixou a bermuda jeans e a calcinha e urinou. Sentiu um alívio tremendo e sorriu infantilmente enquanto urinava, mas evitou fechar os olhos. Sempre que fechava os olhos, ela via tudo outra vez: os corpos arrebentados na cama, as paredes e os lençóis manchados, as capas plásticas imundas, as barras de ferro deixadas no latão de lixo de uma rua deserta, o trailer de um filme de terror dos anos setenta. Ela se limpou e vestiu a calcinha e a bermuda e deu a descarga e saiu do reservado. Uma senhora lavava as mãos. Ela caminhou até a última pia, junto à parede, a uma boa distancia da senhora. Lavou as mãos bem lentamente, esperando que a outra terminasse e saísse primeiro. Quando a senhora saiu, enxugou as mãos, esperou mais um pouco e saiu. Fora, pensou que aquilo era besteira. Afinal de contas, ela e José entrariam na lanchonete para comer, José já estava lá dentro, e eles seriam vistos de um jeito ou de outro.

[DOIS]
Ela pediu dois salgados e uma Coca-Cola, ele já estava comendo um pão de queijo e tomando café. “Onde é que a gente está?” Ele, mastigando, olhou para fora, através da vidraça, e disse: “Não tenho certeza.” “A gente está perto?” “Do quê?” “Sei lá. Do lugar pra onde a gente está indo.” José respirou fundo, colocou o meio pão de queijo (já tinha comido a outra metade) sobre o prato, junto com o pão de queijo ainda inteiro, e disse calmamente: “A gente não está indo pra lugar nenhum.” Ela abaixou a cabeça. Na verdade, já sabia daquilo. Eles simplesmente fizeram a coisa e deram o fora. “Eu sei”, ela balbuciou. “Eu só achei que… sei lá… você tivesse pensado em algum lugar.” “Tudo bem”, ele suspirou. “Eu vou pensar. Prometo.” A balconista chamou por ela dizendo: “Moça.” Sobre o balcão, estavam um prato com duas coxinhas e uma Coca-Cola. Ana Maria levantou-se e foi até lá, pegou o prato e o refrigerante, agradeceu e voltou para a mesa. Comeu a primeira coxinha rapidamente. Ele terminou de comer e acendeu um cigarro. “Você tinha prometido que ia parar.” “Eu vou. Acredite.” Ela comia a segunda coxinha muito devagar, estripando o salgado sem jamais pegá-lo inteiro e levá-lo à boca, mas pescando pequenos pedaços com as pontas dos dedos, sem a menor pressa. Pegava nacos do recheio, evitando a massa. De repente, lágrimas rolaram pelo rosto dela. José deu uma tragada, deixou a fumaça sair pelo nariz, e resmungou: “Eu sei.” Ele sabia. Ela respirou fundo, segurou o choro. Tomou um gole de Coca. “A gente tem que dar o fora”, ele disse. “Acho que daqui a pouco as nossas caras vão começar a aparecer na tevê.” Ana Maria suspirou e levou mais um pedaço minúsculo do recheio do salgado até a boca e o mastigou por um bom tempo antes de engolir. “Se você ficar remoendo a coisa”, ele disse, “vai pirar.” Ana Maria levantou os olhos e olhou para o queixo dele, a barba por fazer. “Se for pensar desse jeito, a gente vai enlouquecer de verdade.” “Vai, não vai?”, ela perguntou. “Vai”, ele disse. Ela empurrou o prato, tomou um gole do refrigerante e também direcionou o olhar para fora.

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