Os ponteiros da Central

De SUSANA FUENTES.

Na estação de trem da Central, os ponteiros do relógio desencontraram-se. Desde então, os quatro lados da torre marcam horas distintas. Para cada relógio, um tempo, uma cidade. Diferentes horas de chegada e de partida. Em cada lado, um relógio, novo desenho dos ponteiros, cada par tem seu passo, seu tempo próprio do compasso.

A cidade não se altera, alternam-se os tempos, há até quem ainda olhe para o alto. No relógio falta uma pequena peça, daquelas que não se fabricam mais. E ninguém sabe o paradeiro daquele antigo funcionário, o único apto a reparar o mecanismo do relógio. Ele conhece a peça que falta para acertar todos os lados com precisão. É quem guarda o segredo. Dedos calejados e rudes, mas conhecedores de tão finas peças, dedos hábeis de médico em exame minucioso e veredicto feito ali na hora, daqueles médicos que também andam raros por aí.

Creio ter visto o relojoeiro. Ou alguém muito parecido com o tal funcionário descrito no jornal. Não em foto, mas em temperamento. Talvez ele pudesse regular os ponteiros, dar corda no relógio da Central. Vi o relojoeiro entre os botecos de um bairro chique da cidade, chique modo de dizer, também com direito a poça e mosquito e pedaços de terra batida entre as pedrinhas portuguesas.

Onde estará neste instante? Será ele aquele senhor sentado ao fundo da galeria, atrás da mesa? Isso mesmo, ali está sua oficina, entre botecos e lojas de parafusos. Seu sorriso convida a moça a entrar. A jovem leva um relógio de pulso. “Parou, será que tem jeito?” Sempre tem. “Em quanto tempo fica pronto?” “Pode vir buscar daqui a três dias.” A moça sorri satisfeita, o relojoeiro pergunta-lhe pelo nome e anota suas iniciais na parte de trás do relógio. Escreve com a ponta de um parafuso, num rabisco muito fino: B L. Ainda empresta à menina agarrada à moça sua lente de aumento. É de encaixar no olho. A menina, curiosa, abre os olhos castanhos do tamanho de amêndoas e olha através da lente. Nada vê. Maior que desapontamento, o espanto. A menina passa o dedo sobre as letras que devem estar ali.

Na ponta do parafuso (tem ponta, o parafuso?) também anota o telefone. É só um carinho a mais, um luxo qualquer. Mas, pode um dia fazer falta. Esse mestre conhece cada peça da engrenagem e como que por intuição, o dono de cada relógio. Como alguns sapateiros, que a giz anotam nas solas dos sapatos um número misterioso a organizar apartamentos e edifícios da cidade. 246-8. O sapateiro anota e só ele entende que é da rua tal, do apartamento desse e não daquele edifício. Quando não existirem mais desses seres simples e conhecedores do mistério das coisas, com sua própria lógica que no final dá certo, estará em risco a organização da cidade. Amam o seu ofício e zelam por tudo à sua volta. Aos poucos corremos o risco de ficar na mão de “não sei senhor”, “é impossível, senhora”, “não posso fazer nada, é culpa do sistema”, no ar frio de um funcionário diante do computador, que sabe digitar as teclas, mas raramente saberá apontar o nome da rua onde trabalha. Nem saberá dizer que padaria, que banco, hospital ou veterinária há na sua rua, quanto mais no quarteirão. Os mestres, sim, nos organizam. O simples fato de existirem numa esquina, de persistirem ali. Eles fazem existir a esquina, a praça, até o corpo de bombeiros.

A menina olha para o alto, a parede da oficina: “E estes relógios na prateleira, são para vender?”

A prateleira de vidro toma a parede toda, uma vitrine para repouso do despertador, mais um relógio em forma de barril, um cuco. Em silêncio um desfile interminável de relógios, cada um com sua forma de marcar o tempo.

“São para vender?”

“Não, estes estão aí porque os deixaram. Não estão à venda, pode ser que o dono ainda volte para buscar”.

“Mas este pequenininho, há quanto tempo está aqui”?

“Este? Ah, já há cinco anos…”

O tempo parado, congelado, naquele pedaço da estante. Dali não se move há muitos anos. Porém, não sem razão. Um dia, levaram para consertar um relógio. Levaram para consertar… O relojoeiro logo viu que o dono do relógio era outro. O nome estava ali, as iniciais, na parte de trás, estavam ali, anotadas por suas próprias mãos. Nem deu bola ao ladrão. O sujeito saiu, o mestre relojoeiro tirou a lente do olho e botou a mão no telefone: veio o dono buscar. Em suas mãos, relógios são bumerangues. Tudo tem sua hora e sua combinação de acontecer em algum lugar. O ladrão poderia pensar que naquele canto largado, velho, entre os botecos e a loja de peças e parafusos, não houvesse cuidado. Qual nada. Chega um relógio, o velho senhor já leva ao olho direito a sua lente de aumento. A lente se encaixa entre o músculo da bochecha e o alto das sobrancelhas e pronto: aparece a linha invisível. Riscos que só ele pode ler.

O relojoeiro na oficina, a menina com o relógio, os ponteiros da Central. Cada face marca uma hora, cada lado da cidade, um ponto cardeal. Funcionam com horas diferentes, e não sabem que ali se dá a combinação. É o modo de continuar existindo e duplicar interminavelmente a vida na cidade.

A menina continua com o dedo sobre as letras. Giram em sentido horário. Com a lente no olho, atenção! Começa a ver… já sabe o que procurar. Fisga a linha, segue o risco. Seus dedos rodam devagar. B L. Vira-se para a irmã, não diz nada, sorri, apenas.

“Vamos”, ralha a irmã, achando graça, “você não tem jeito, é distraída mesmo, hein.”

Mas agora a menina já sabe: é como achar o corte da fita adesiva no rolo de durex. É preciso inventar a linha, acreditar que ela está lá. Vários sentidos se juntam. Na superfície do relógio, é assim que se vai além: é preciso imaginar.

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