A morte do dr. Mamede – parte I

De HENRIQUE RODRIGUES.

O professor de Literatura Comparada Mamede Alcântara foi encontrado morto pela manhã, na sua biblioteca. Com a estante e uma pilha de livros sobre o corpo, a família entendeu como acidente, porém tiveram de aguardar a chegada da polícia. O detetive Manfredo, recém-formado, encontrou de imediato evidências de que se tratava de um assassinato.

Por coincidência do destino (e de quem mais seria?), Manfredo havia sido aluno de Mamede antes de abandonar Letras pelo curso de detetive oferecido nos anúncios das revistas em quadrinhos. Sua preferência por romances policiais, incluindo monografias associando a obra de Poe ao narcotráfico, acarretara ojeriza intelectual em Mamede, que o reprovara em definitivo pela dependência urgente dos créditos. Num primeiro impulso, Manfredo sentiu-se vingado.

Após retirarem a estante, o detetive não permitiu que mexessem nos livros espalhados, sendo que chamou sua atenção um volume estrategicamente aberto sobre o rosto do professor. Era um exemplar do Aurélio XXI, no qual o nariz gorduroso de Mamede deixara marca num verbete deveras intrigante: panegírico.

* * *

Manfredo investigou minuciosamente o local do (já tinha certeza) crime, não sem antes se distrair por várias horas com uma edição bilíngüe da Ilíada que jazia sobre a canela esquerda da vítima. Cuidadosamente, retornou o dicionário ao nariz adunco de Mamede, e em seguida escavou dentre os livros espalhados na sala até encontrar o Houaiss e descobrir que continha uma definição mais rica, filologicamente falando, do que apresentava o Aurélio, embora este fosse menos empolado.

Panegírico. Trocando em miúdos, um livro de elogios. O que isso significava na vida e na morte do professor? Aos 74 anos, 45 deles dedicados ao meio acadêmico, Mamede Alcântara viveu para a literatura. Nunca se casou, não teve filhos, relacionamentos extraconjugais, além de nunca ter se divorciado, motivos pelos quais suas preferências em termos de sexo eram postas em questão nos corredores da universidade. (Apesar de todos saberem que o livro é um símbolo ginecológico.)

Tudo isso vinha-lhe à mente quando Manfredo sentiu uma presença se aproximando. Deu um salto em direção à porta, iniciando uma perseguição pela sala de estar que culminou na varanda da casa. Conquanto fizesse um calor terrível, deu apenas para identificar o indivíduo de sobretudo sumir na esquina carregando um pacote sinistro. Era um vendedor da Barsa.

(continua)


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