O vestido, a noiva

De MAURÍCIO MELO JÚNIOR.

Frente à Sheila Noivas, uma loja sem vitrines, o vestido coberto pelo plástico e a breve camada de poeira. Duas, quatro, quantas vezes for necessário, sem desfazer o riso, Iraci França levanta do banco, sai de traz do balcão e espana a persistente e frágil sujeira que encobre o encanto da esperança. Logo o vento do cerrado sacode o chão de terra batida da avenida Luís Estevão e leva o esforço da comerciante.

Ela placidamente ri.

No fim da tarde a vermelhidão do sol se derrama agigantando a sombra de Leda da Cruz, a autônoma, pelo vazio do chão. Meninos ranhentos soltam pipa, jogam bola. O resto é o silêncio da desolação, a poeira se elevando, o esgoto correndo sem coberta. Seus dias de preparativo têm sido curtos. Agora levanta mais tarde e volta para casa mais cedo. Agora descobre a invasão que não enxergava com honestidade. Sempre a via no lusco-fusco das horas mortas. A madrugada em que saía, a noite em que voltava.

O mundo mais belo na leveza da felicidade.

Reparou na Sheila Noivas, na presença miúda de Iraci a espanar os vestidos em exposição.

Uma novidade.

Leda, a nascida no lixão da Estrutural, não sabia de sua invasão crescida. A mãe catou lixo até cair – que Deus a tenha – sem saber porque morria, pra que tinha vivido. Deixou Leda, a que jurou não viver do lixo.

Aprendeu a ler e contar como pôde e logo foi viver de faxinas, pequenas vendas, o que desse para sustentar honra e decência.

Trinta e quatro anos vendo nascer dentro da invasão mosca, rato, carrapato, barata, as taperas, a inauguração de ruínas avançar no cerrado pavimentando com pouca sombra e muita desolação seu caminho de casa.

Nada lhe metia susto. Uma vida para viver.

E agora a novidade do vestido.

– Esse tá disponível para o dia 30? – Leda apontava uma peça coberta de strass, lantejoula e corte em estilo evasê, um vestido melancolicamente chic.

– Tá sim freguesa. A aluguel custa barato, duzentos e cinqüenta reais com direito aos vestidos das duas daminhas e mais luva, tiara, véu, porta-aliança, cestinha de flores.

Iraci não para de falar, conta da experiência de quatorze anos no Gama – sede do empreendimento, da esperanças na Estrutural, deixou de ser doméstica para vender sonhos, o marido largou o ofício de mestre-de-obras para se jogar com ela nas lojas, a nora prova os vestidos para as clientes – a senhora quer ver? Não. Leda não quer ver, mas toma a palavra e fala do noivo, um homem honesto, trabalhador, responsável, respeitador, da Capela Nossa Senhora da Esperança, ali bem pretinho da Avenida Luís Estevão, acertada para o dia trinta, dos concertos no barraco, agora com jeito de casa, o problema é que fica próximo do poliduto de querosene e gasolina, um medo, pois a senhora sabe da falta de hospital, escola e bombeiro que tem por aqui, somos uma gente esquecida que vive bem perto do Plano Piloto, dá pra sentir o cheiro dos apartamentos do Cruzeiro, onde tem tudo, mas pra aqui nada, a não ser a gente vivendo de salário mínimo, quando não se vive do lixão e ainda com o Parque Nacional bem aqui nas nossas costas, um custo, pois qualquer açãozinha de nada – dizem – pode comprometer a água que abastece quase metade de Brasília, mas a senhora me reserve esse mesmo, quero coisa boa no dia mais feliz de minha vida, quando caso de véu e vestido branco com o homem dos meus sonhos, prometo ter cuidado pra ele não pegar poeira, igualzinho a mim quando abri essa nova loja, uma felicidade, um dia feliz de minha vida, mas não se avexe que eu mesma lavo o bicho quando você trouxer de volta e a lavagem não acrescenta nem um centavo no aluguel…

Duas quase comadres despejando felicidades no breu da noite que se faz.

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