Quasecrônica 17

De NEREU AFONSO DA SILVA.

Passa a carteira tio, sussurrou o menino de nem dez anos de idade e olhos nervosos em pleno centro da cidade – passa logo tio senão eu vou perder o controle – e o homem com medo, pensando em socorro, em discurso sobre a paz, em entregar a carteira, em parar de tremer, em aceitar o chavão involuntário e inconsciente que foi pensar em seu filho nessa hora – vai tio assim mesmo – e ele foi rápido e o menino também e em coisa de segundos concluíram a troca entre pânico e dinheiro, o menino com a grana e ele com a paúra; então se separaram, o menino cidade afora e ele com a cabeça num lampejo formulando pronto, passou, mas na pele, seu coração destemperado, esticado noutro ritmo demorava em acreditar, enquanto a cabeça novamente loquaz quis muita calma nessa hora que amanhã é outro dia e você vai estar aqui de novo no trabalho, você vivo e o menino nunca se sabe; e de fato lá estava ele no dia seguinte no trabalho em praça pública, em seu ofício de palhaço saltimbanco em pleno centro da cidade, maquiado com seu nariz vermelho vivo, quando do nada viu o menino, o mesmo menino de nem dez anos de idade, vivo, não o reconhecendo e sorrindo de verdade, hoje com olhos diferentes, devidamente infantis, batendo palmas na cadência do palhaço, em plena praça pública, que alegrava indistintamente todo mundo que passasse.

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