A tumba

De DANIELA MENDES.

“Talvez fosse aquela quantidade de desenhos da Disney ou livros do Lobato. Talvez os filmes musicais de Hollywood e aquela bomboniere cheinha de happyends. Quem sabe? Sempre um sol de papel laminado quando chovia ou estrelas de papelão reciclado de caixas de detergente cravejado de purpurina… A arte de transformar quinquilharias em objetos preciosos através de inventários secretos. Um certo mimetismo de moças de revista e o mais difícil: a manipulação da vida como um eterno folhetim… Quem sabe o que a levou mudar a farda das hemácias de vermelho para azul? Diziam que aquela cor era nobre, lá se foi ela e sua última tentativa estética de sofisticação. Num tempo sem dinastias, em que tudo se resolve com tinta suvinil, por que não?”

[Língua azul era o que mais intrigava o outro soldado enquanto o cheiro ruim fazia com que cada víscera do seu corpo se remexesse dentro de si. Mal podia ligar para o resto da tropa de urubus. Era olhar para o retrato daquilo que fora uma jovem senhorinha e aquilo que era uma velha desfigurada por servir-se de banquete para toda sorte de vermes aminhocados que seu estômago colocava para fora estranhos alimentos que ele jamais descobriu como foram parar lá dentro].
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Enquanto o outro parceiro, quase tropeçando naquele amontoado de fluídos se encantava com cada renda, cada dourado, cada flor, cada pluma e vidro. Quem sabe? Por que não? O que? Nenhum vermelho. Tudo rosa, azul e branco. Como explicar para toda vida lá fora que ninguém deveria mexer ali? Ninguém fora convidado. Não havia nada morto ali. Aqueles vermes e parasitas estavam vivos e famintos.

Moveu a agulha de uma vitrola para descobrir o tema musical que compunha aquilo tudo. Sinatra. Perfeito!

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