Dia das mães

De LÚCIA BETTENCOURT.

– Vai com papai, filhinha, que mamãe precisa descansar. Vai que ele te cuida direitinho, vai te levar para um lugar bonito, bem protegido. Ele mesmo construiu, é como se fosse um palácio de conto de fadas. Que escuro nada, sua boba! É que palácio encantado é assim mesmo, tem que ser fechado e muito secreto, para não atrair atenção. Se fosse um palácio que todo mundo visse, não era encantado, né? E lá ele vai levar os doces que você mais gosta, você só vai comer biscoito, tortas, tomar refrigerante. Nunca mais vai ter que comer verdura, você vai ver. E ele vai te dar muitos brinquedos, todos os que você quiser. Ele vai fazer você se sentar no colo dele, e vai te fazer muito carinho, vai te dar muitos beijinhos, vai te abraçar bem forte. Que machucar nada! Papai não vai nunca machucar a filhinha dele. Tudo o que ele quer é te dar muito amor, muito carinho. E daí, que seja sem roupa? Carinho é bom assim, com você peladinha como veio ao mundo. Papai quer te ver assim, como o anjinho dele que veio do céu para alegrar a vida dele. Papai queria tanto uma menininha assim como você. Os cabelos lourinhos, a boca vermelha. Esse corpinho macio, frágil como o de um passarinho. Foi uma alegria quando você nasceu, papai ficou tão contente. Ele sempre gostou de cuidar de você, era ele quem te dava banho, te lavava todinha, não deixava nem uma dobrinha sem limpar. Ah, filhinha, vai logo, para o papai não ficar triste, nem nervoso. Você sabe como ele é impaciente, e mamãe está tão cansada. Não tenha medo, isso é assim mesmo. É que as mãos de papai são grandes, fortes. Mas ele só está te fazendo carinho, cuidando de você. E ele vai cuidar cada vez mais de você, vai fazer de você uma princesa igual à Cinderela. E, se você for bem boazinha, e fizer tudo o que ele quiser, sem chorar nem reclamar, ele vai te dar de presente um bebê de verdade, para você cuidar. Juro, filhinha. Vai ser um neném igualzinho a você, quando era pequenininha. Cabelos lourinhos, boca vermelha… E você vai ver como o papai vai brincar com você e com o seu bebezinho. Você vai adorar. Não chore, sua boba. Você vai gostar, agora vai com o papai, para a mamãe poder descansar…

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– Filho só os nossos! Quem é que consegue aguentar malcriação dos filhos dos outros? Nem dos meus, eu aguento. Eu educo! Quer chorar? Então eu dou razão para chorar. Esse negócio de chorar de manha, comigo não cola. Choro, só admito de fome ou de dor. Se está com a barriga cheia, então dou logo uns tabefes, que é para chorar com razão. Aqui em casa é do meu jeito. Criança tem que obedecer, andar na linha, se comportar. Não admito gritos. Grito só os meus, e eu só grito porque senão aquele canalha do pai não me escuta. E a espevitada da filha dele vai pelo mesmo caminho. Vem para minha casa e ao invés de se comportar fica perturbando meus filhos. Outro dia o menorzinho estava quase dormindo e ela acordou o desinfeliz. Ah, o trabalho que tinha me dado para fazer ele dormir, e a pestinha chega e balança o chocalho bem no ouvido dele! O pobrezinho se estremeceu todo, assustado, tive que passar mais meia hora ninando. Ah, mas me vinguei! Dei-lhe uns tabefes que ela viu estrelas. Mas nem assim ela se emendou. Outro dia foi a mesma coisa. A gente voltando da rua, o bebê quase dormindo na cadeirinha e ela começa uma brincadeira no banco de trás do carro com o pateta do mais velho. Esse meu filho é tão sem personalidade, faz tudo o que ela inventa. O pior é que o banana do pai não faz nada, é um omisso. Não faz e ainda reclama. “Vê se faz esta criança calar a boca!”, ele diz. Eu é que tenho que fazer. Pois bem, eu fiz. Virei-lhe a mão. E como ela gritasse mais, segurei o pescoço dela assim, ó, até ela parar. E ela parou. E eles também pararam. Ficou tudo num silêncio… Mas assim é que eu gosto. Quero ver outra criança gritando no meu ouvido. E quero ver o banana do pai reclamar de novo.

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