Últimas confissões do padre voador

De PAULO LIMA.

Domingo, 10:25h
Está muito frio aqui em cima, já não consigo sentir meus pés, estes pés que um dia vagaram sobre a terra semeando o bem e a palavra de Deus, da virgem santíssima, das tábuas sagradas da igreja de Roma, dos desígnios do Senhor. Metade dos balões já se perdeu, pedaços inúteis de plásticos coloridos despencando sobre o azulzinho do Atlântico. Plop! Agora é mais um que deixa de existir. Plop! Plop! Plop! Três, três de menos. Não sei quantos se foram nas últimas horas. Tento fazer as contas inutilmente, mas sei que cada estalo seco representa um minuto a menos. Uma seqüência ininterrupta de Plop! Quantos foram agora? Dez, vinte, trinta e cinco? Sei que não foram poucos, sinto um puxão abrupto que me impulsiona para baixo. Os dois celulares que trago comigo emudeceram faz tempo, e o GPS é apenas um adorno decorativo, um entulho do qual devo me livrar logo, pois não sei manejá-lo. Estou assustado, mas confiante.

Domingo, 11:40h
Uma gaivota acaba de surgir no meu campo visual, um belo espécime. Insiste em me acompanhar. Espero que me traga sorte.

Domingo, 11:50h
Ela ainda está aqui, a gaivota. Começo a temer que possa atrair outros companheiros de jornada, e que invistam contra os balões. Vou chamá-la de Frieda, assim tento imaginá-la uma amiga. Frieda, minha irmã italiana.

Domingo, 12:40h
Um vento sopra com bravura vindo do continente. Percebo que me empurra mar adentro. Um grande susto, um enorme susto, um susto imenso. Faço uma prece em italiano, mas depois me dou conta de que é necessário ampliar as possibilidades. Repito a mesma prece em português. E em francês. E em alemão. É pouco. Vou direto ao árabe, e ao russo, e ao búlgaro. É pouco. Verto a prece para o hebraico. É pouco. Para o papiamento. É pouco. Vietnamita, malaio, dialeto das Ilhas Fiji.

Domingo, 13:23h
Vejo um pequeno barco, uma mancha insignificante perto da plenitude oceânica, uma força telúrica, a grandeza do Senhor.

Domingo, 13:35h
Frieda está de volta. Trouxe companhia. Certamente a imagem de um padre voador deve ter soado excessiva para ela. Precisava de testemunhas. Frieda e Albertino, meus novos amigos. Albertino, meu irmão italiano.

Domingo, 14:00h
Sinto sede e fome. Com a mão direita, sorvo um pouco de água do meu cantil. Como uma barra de cereal, que me lembra a hóstia sagrada. A associação me dá forças.

Domingo, 15:00h
Plop! Plop! Plop! Plop! Plop! Uma saraivada deles, e mais um puxão violento me sugando para baixo. Quantos balões já perdi? A fé remove montanhas, sei que me localizarão antes que eu despenque em parafuso na direção do mar.

Domingo, 15:30h
Nada a vista. O mundo todo se transformou num imenso painel azul. Sinto sono.

Domingo, 15: 57h
O anjo Gabriel estava lindo. Branco da cabeça aos pés. Caminhamos por uma relva, lado a lado, num lugar indistinto. Ele me diz para ter esperança, pois os padecimentos serão recompensados, e é infinita a glória do Senhor. Sua voz vai se tornando distante até sumir de vez. Devo ter sonhado.

Domingo, 16:15h
Devem estar me achando louco por ter me metido nessa aventura. Senhor, eles não sabem o que dizem. Eu, padre Bruno Campanelli, tinha um sonho. Eu, padre Bruno Campanelli, sempre tive um sonho. Eu queria voar como os pássaros. Que sensação de plenitude e liberdade. O sonho de Ícaro. Linda, lindona a imagem do homem-pássaro voando tão alto, beirando os píncaros, os confins do infinito, Ícaro se aproximando do sol, Ìcaro pagando um tributo por sua ousadia, Ícaro tendo as asas derretidas, Ícaro caindo dos céus.

Domingo, 17:00h
Azul, azul, azul, azul, azul, azul, azul, azul, azul, azul, azul, azul, azul.

Domingo, 17:15
Um grupo de balões acaba de se desgarrar. Eu os vejo seguir o rumo norte, saltitantes e alegres como crianças que acabam de deixar a escola.

Domingo, 17:25h
Jogo os celulares e o GPS ao mar, objetos inúteis a essa altura. Percebo que é uma reação temperamental da minha parte. Um gesto de desespero.

Domingo, 17:30h
Faço uma nova prece. Entrego a alma a Deus. Peço perdão pelos meus pecados.

Domingo, 17:45h
O desespero é total. Choro. Restam poucos balões. O mar se aproxima perigosamente. Devo estar caindo.

Domingo, 17:59h
Está ficando escuro. Sinto o vapor gelado das ondas me envolvendo num abraço. Não resta muito tempo.

Domingo, 16:10h
A noite está bem aqui. Uma estrela, duas estrelas, três estrelas, quatro estrelas, cinco estrelas, seis estrelas, sete estrelas, oito estrelas, nove estrelas.

Domingo, 16:22h
Câmbio Sagrado Coração de Jesus, câmbio Virgem Santíssima, câmbio Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, câmbio Senhor Padroeiro das Almas Desesperadas, câmbio San Genaro, câmbio Nossa Senhora Aparecida, câmbio Santo Agostinho, câmbio Nossa Senhora Imaculada, câmbio Senhor meu Deus, câmbio Santo Agripino, câmbio São Moisés, câmbio Nossa Senhora da Assunção, câmbio santa Odília, câmbio São Bonifácio, câmbio Nossa Senhora de Guadalupe, câmbio Santa Rosa de Lima, câmbio Imaculado Coração de Maria, câmbio São Gregório, câmbio Nossa Senhora do Socorro dos Cristãos, câmbio são Colman, câmbio Santa Edwigs, câmbio São José, câmbio São Wenceslaus, câmbio São Francisco Xavier, câmbio São José e Santa Ana, câmbio São Lawrence, câmbio São Tiago e Nossa Senhora do Monte Carmelo, câmbio São Pedro Claver, câmbio São Luís Bertrán, câmbio Nossa Senhora da Caridade, câmbio São Tiago e Santa Teresa d’Ávila, câmbio Santo Anskar, câmbio Santo André e Santa Columba, câmbio São Benedito, câmbio Sagrado Coração de Maria, câmbio São Henrique, câmbio Santa Jona d´Arc e Santa Teresinha de Lisieux, câmbio São Nicolau e Santo André, câmbio São Tiago, câmbio São Willibrord, câmbio São Esteves, câmbio São George, câmbio Nossa Senhora da Assunção, câmbio Santa Gertrudes, câmbio São Patrício e Santa Brígida, câmbio São Francisco de Assis e Santa Catarina de Siena, câmbio São Pedro Batista e São Francisco Xavier, câmbio São Cassimiro, câmbio São Paulo, câmbio São Cyrilo e São Methodius, câmbio São David, câmbio Nossa Senhora de Lujan, câmbio Nossa Senhora de Coromoto.

ELES FORAM OS ÚLTIMOS A VER O PADRE COM VIDA

Ermelina Del Rios, beata da Igreja de São José, bairro das Flores, Curitiba

A fornada de biscoitos já estava pronta, eu tinha sido escalada para vendê-los naquele dia. As crianças adoram nossos biscoitos. Não é por gabolice, mas são os melhores de todo o estado. Até veio aqui outro dia um pároco argentino, ele disse com todas as letras, mocinhas, nunca comi biscoitos tão finos e tão deliciosos em toda a Argentina, em toda a minha vida. Se bem que o pároco tinha um certo olhar ladino, e lembro como hoje, ele me deu uma piscadela. Também pudera, sou a mais jovem entre todas as religiosas que prestaram seu voto a Deus nesta igreja. E sou bem bonita, sangue espanhol nas veias, mas que Deus me proteja dessa vaidade, hoje mesmo rezarei dez ave-marias como penitência. Os fiéis começaram a chegar no meio da manhã. Em pouco tempo tínhamos vendido todo o nosso estoque. Fiquei muito contente. Só restou uma dúzia de nossos biscoitos polvilhados, deliciosos. Então quem aparece de última hora? O padre Bruno Campanelli dizendo olá mocinha, acreditou que eu não vinha? E foi o padre Bruno quem nos comprou o último punhado de nossos biscoitos maravilhosos, veja você que coisa. Depois padre Bruno foi conversar em segredo com a nossa madre superiora, mas o segredo dele já sabíamos, as notícias também circulam entre nós. O padre Bruno ia fazer uma viagem de Balão. Eu achei o máximo, esse padre é mesmo uma figura.

Tereza Schultz, madre superiora da igreja São José, bairro das Flores, Curitiba

Acordei especialmente disposta. Fiz minhas abluções e rezei uma oração especial. Depois fui tomar o desjejum. Estava um dia lindo. Havia combinado que naquele dia teríamos nossa sessão de cinema, e o filme selecionado seria Pai e filha, de Yasujiro Ozu, uma linda história de renúncia e de amor filial. No meio da manhã recebi a visita do padre Bruno Campanelli. No dia seguinte ele iria tentar bater um recorde de vôo com balões de aniversário. Esse padre Bruno. Eu sempre o considerei meio fora da órbita normal. Ele chegou e eu diria que era a personificação do júbilo em pessoa. O que um sonho não é capaz de fazer.

Abel Kracotchevsky, colônia de pescadores da Vila São Raimundo, litoral de Paranaguá

Sou pobre e honrado, eu quase fui às vias de fato com Ermelino Dozzea, proprietário dum armazém na vila. Ele teve o desplante de espalhar por aí que eu enganava os fregueses, que eu roubava no quilo do pescado, que eu não prestava, que eu não era um bom sujeito. Tudo isso porque eu não consegui pagar a conta do mês. Eu tenho uma pescaria em alto-mar, não posso ir lá tomar satisfações com esse sacripanta do Ermelino agora. Tenho de ganhar meu pão. O mar estava agitado, éramos eu e dois ajudantes. Olhe lá em cima, apontou Canuto entusiasmado, um balão. Eu desconfiei que não era um, mas vários balões. Devem ter se soltado duma festa num desses iates bacanas, foi o que pensei.

Roberto Acquanil, estudante secundarista, litoral de Paranaguá

Tenho todos os modelos de aviões da Segunda Guerra. Veja aqui. É uma mania que herdei do meu pai. Voar é com os pássaros e com os homens. Mas meu sonho mesmo era voar num balão. Já cabulei incontáveis aulas para presenciar pousos e decolagens no aeroclube de Paranaguá. Quando eu vi na TV que um padre maluco ia tentar quebrar um recorde de balonismo, fiquei em êxtase. Na véspera do domingo, tive uma noite insone. Não era pra menos. Eu queria estar no lugar desse padre. Então lá fui eu testemunhar o fato inédito. O nosso Santos Dumont estava meio que encoberto por uma pequena multidão, quando cheguei. Deu pra ver que era ele, só podia ser ele. Eu contava os minutos para ver a ascensão dos balões. Eu vi o padre metido naquela pequena cabine, e sobre ele aquela imensidão de balões coloridos. Até pensei em meu último aniversário, que coisa engraçada. Os balões foram subindo aos céus sob aplausos e sorrisos e uma zoeira geral.

Maria Dolores Stefanelli, dona de casa, bairro Alto, litoral de Paranaguá.

Roni é meu filho de 4 anos. Creio que hoje ele acordou com febre, uma febre daquelas. Temi logo pela dengue, essa doença horrível. Vi no posto de saúde duas crianças passando mal. Parecia que estavam à beira da extrema-unção. Deus me livre. Moramos nesse bairro pobre à beira-mar. Eu estava lavando roupa, Roni continuava febril, então num átimo ergui os olhos e vi aqueles balões singrando o céu, uma coisa linda, algo que guardarei para sempre nas minhas retinas. Uma pena que Roni não pôde testemunhar, ele continua com febre.

Fabrício Antonelli, guarda municipal, Quartel de Polícia de Paranaguá

Foi tudo muito rápido. Eu vi aquele sujeito meter a mão no bolso de um velho de 72 anos. O espertinho tentou tirar proveito da confusão. Havia um aglomerado para presenciar a partida do padre voador, foi assim que todos o chamavam. O fato é que eu consegui deter o salafrário em tempo, dei voz de prisão, mas, que diabos, ele livrou-se em tempo, perdeu-se na multidão, eu o persegui, mas ainda pude olhar para trás e ver os balões que ascendiam aos céus, uma imagem impressionante que ficará gravada eternamente na minha lembrança.

CONTATOS IMEDIATOS

Breu, breu, o mais puro breu. Frio, frio, frio. Giro em espiral e vou descendo até bater as costas contra uma superfície áspera. Curioso, não sinto o corpo, mas tenho plena noção da consciência. Serei a barata de Kafka? Mas onde está minha família? Uma luz distante, diminuta e fugidia. Aperto os olhos para enxergar melhor. Um peixe de duas cores passa bem próximo aos meus olhos. Uma lula abre seus tentáculos sobre minha cabeça, tenta me arrastar, desiste do intento. A luz vai chegando mais perto, e mais perto até me cegar por completo. Uma voz doce e feminina chama o meu nome, abro os olhos, e um ser mítico está a minha frente. Um aleph, meu aleph, pensei. Esse ser tem metade mulher, metade peixe. Ela se move languidamente e pede que eu a acompanhe. Eu sigo seu rastro guiado pela luz. Estou cansado e espero chegar a algum lugar logo. Preciso fazer a minha oração diária.

PAULO LIMA, jornalista, documentarista, edita a revista eletrônica Balaio de Notícias.

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