Por um minuto de atenção

De SUSANA FUENTES.

No café das Lojas Americanas, um estojo cai. É uma cápsula de guardar bijuterias, uma caixinha italiana com mosaicos de pedra. Ela se abre na queda e alguns remédios espalham-se pelo chão. A dona do estojo, uma mulher nos seus 70 anos. Já terminava de pagar o café no balcão e o levava com cuidado até uma das mesas. Desolada, olhou para o estojo no chão, os remédios para baixar a pressão. Terminou de caminhar até a mesa, colocou sua bolsa na cadeira, pousou a xícara de café. Olhou em torno de si. Viu duas meninas: nos seus dez ou onze anos, tomavam sorvete com calda de chocolate, a mãe, com um olho lá e outro cá, vasculhava as promoções de CDs.

As meninas continuavam suas conversas, duas meninas louras, elegantes, bem arrumadas. A mulher demorou até perceber que seu pequeno acidente não interessara a ninguém. O sorvete no balcão continuava seu percurso até à boca, duas colheres, duas meninas, um só foco, mas a atenção não estava no sorvete, estava em algum outro lugar que não ali. O sorvete levado à boca: ninguém estava lhe fazendo caso? Tossiu e esperou que fosse o foco de seus olhares por um rápido instante. Esperou algum tempo, viu se o instante chegava pelo canto dos olhos: a senhora precisa de alguma coisa? Ih, caiu! Eu pego! Mesmo que ela então impedisse as meninas: Não, não precisa! Já está, peguei, viu? … sorrisos de agradecimentos sinceros seriam trocados nalguns instantes tornados íntimos. Aqueles instantes em que estranhos viram velhos conhecidos. E a mãe olharia com aprovação e até certo orgulho a gentileza das filhas: sim, respondiam a seus ensinamentos, eram cuidadosas com os outros na rua, os mais velhos. E os olhares se cruzariam até que de novo cada menina afundasse no sorvete, ou nos seus pensamentos de coisas a resolver com a mãe na rua até o final do dia.

Mas as meninas nem se deram ao trabalho ver o que tinha caído no chão. Havia também um senhor bem ao lado, no balcão. Esperou que ele a visse, poderia ainda salvar a tarde. Nada. Era como se ela não existisse. Então, passadas frações de segundos onde o próximo passo se determina, a mulher apoiou a mão na mesa, agachou-se, com a ponta dos dedos alcançou a caixinha e em seguida catou os remédios: três tabletes coloridos que voltaram a chacoalhar na caixinha em seu caminho até a bolsa. Baixou seu olhar perplexo sobre a xícara, ainda se surpreendia aos 70 anos. Serviu-se do adoçante, estou mesmo precisando fazer alguns exercícios, mexeu o café com o palito de plástico e tomou o esperado gole de café. Café frio como o sorvete das meninas, frio como aqueles olhos mergulhados no azul e guardados pela mãe.

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