Reminiscências de um mero extintor de incêndio

De ANDRÉ DE LEONES.

Eu estava lá, eu vi tudo, eu não fiz nada, eu fui usado, eu nunca fazia nada, eu só ficava lá, preso, afixado ao meu suporte, à disposição, vermelho, luzidio, à disposição, mas não para aquilo, à disposição, mas não para aquele tipo de coisa.

Eu nunca tinha visto nada parecido. Eu nunca tinha sequer ouvido falar de algo remotamente parecido com aquilo.

O nome da boate era Camorra. A Camorra era uma boate de lésbicas.

(Ironicamente, a Camorra (anos depois do acontecido) foi destruída por um incêndio. Eu não estava mais lá. Eu tinha sido transferido, remanejado para a maternidade do hospital Santa Maria.)

Eu não sou preconceituoso.

(Não houve vítimas fatais no incêndio. Ela queimou durante o dia, um curto-circuito (ouvi dizer). Os funcionários escaparam ilesos. Ela queimou, o dono decidiu fechá-la. Uma boate de lésbicas. Mas eu já estava na maternidade, ouvindo o choro emocionado dos pais e o choro desesperado das crianças.)

Eu deveria ser usado para (literalmente) apagar incêndios, não para (metaforicamente) causá-los. Ainda que eu não tenha sido usado para (metaforicamente) causar incêndio algum. A coisa já tinha degringolado quando Alma me tirou do suporte e me usou. Eu não fiz nada. Eu apenas fui usado. Um objeto qualquer, usado como arma.

O trágico desfecho da história. O trágico, terrível, inesperado e sangrento desfecho da história. História que (acredito) começou um pouco antes, horas antes desse trágico, terrível, inesperado e sangrento desfecho.

Havia na Camorra uma faxineira (Auxiliar de Serviços Gerais) chamada Divina.

Divina não era lésbica.

O responsável pelos Serviços Gerais, Adamastor, baixo e gordo, irmão do proprietário do lugar, Adalberto, baixo e magro, convenceu Divina, baixa e não muito magra, a lhe pagar um boquete. Estavam sozinhos no lugar. Estavam encostados na pilastra, não, ele estava encostado na pilastra na qual está afixado o suporte no qual eu estou afixado, e fez a proposta, ela sorriu e se abaixou, ele abaixou as calças e ela o chupou. Antes, estavam se agarrando.

Um boquete heterossexual em uma boate de lésbicas. Uma espécie de sacrilégio, talvez. Em todos os sentidos, talvez. Ele, patrão dela. Entendem?

Não é que ele tenha precisado de muito para convencê-la. Na verdade, ele sequer teve de convencê-la. Ele apenas pediu. Ela riu e fez. Não foi forçada ou coagida ou violentada, nada assim. Mas o ambiente, caramba, talvez aquilo não tenha sido mesmo aceitável ou adequado ali, naquela ambiente.

Era meio-dia, eles estavam sozinhos, os outros funcionários tinham ido almoçar.

Acho que a desgraça que aconteceu naquela noite foi uma espécie de resposta punitiva do lugar àquela cena (para alguns, ou algumas) reprovável de exploração sexual.

Eu sou um objeto inanimado. Eu sei das coisas provocadas por objetos inanimados, sei das coisas instigadas por certos lugares (uma boate, por exemplo). Os seres humanos são manipulados por tudo o que não é vivo. Mas eu não queria soar tão didático.

Ele, patrão dela, dizendo: “Chupa o meu pau, agora”. Ela rindo e se abaixando e abaixando as calças dele e abrindo a boca e a língua se agitando na boca dela e ele fechando os olhos.

A história da humanidade narrada do ponto de vista dos objetos e dos lugares seria uma outra história da humanidade. Muito mais interessante, penso. E muito mais negra, também.

E foi naquela noite. Naquela noite aconteceu a desgraça na qual, inadvertidamente (eu não fiz nada, eu fui usado), eu fui envolvido.

A boate não estava muito cheia. Eu estava lá, afixado, preso ao meu suporte, vermelho, luzidio (obrigado, Divina), quando aconteceu.

Alma e Natália eram um casal de lésbicas. Freqüentadoras assíduas da Camorra. Mais um pouco e passariam tanto tempo por lá quanto eu.

Naquela noite, Alma fez uma coisa muito feia, condenável, nojenta: beijou outra garota na saída do banheiro. Ela traiu Natália gratuitamente, partiu seu coração (vermelho, luzidio?). Que eu saiba, a boate não a instigou. Ela estava bêbada, muito bêbada, e puxou uma garota qualquer (eu mesmo nunca a tinha visto, acho que era a primeira vez que aparecia na Camorra) para junto de si e a beijou. Natália viu a cena de onde estava, do meio da pista, e começou a chorar. Quando Alma voltou para junto dela, Natália lhe disse horrores e elas brigaram feio. Alma estava bêbada demais e não parecia ter noção do que fizera, tanto que instou Natália a dar o troco.

“Quer saber?”, ela disse para Natália. “Escolhe alguém aí e beija. Aí a gente fica quite. Aí a gente volta a ficar numa boa.”

Natália, transtornada, resolveu obedecer. A desgraça foi a pessoa escolhida por ela.

A garota beijada por Alma na saída do banheiro era uma qualquer, alguém que (conforme já explicitado acima) eu mesmo nunca tinha visto nas dependências da Camorra. Natália, por sua vez, beijou Daniela, uma ex-namorada. Antes Natália também tivesse escolhido uma qualquer, mas não. Agarrou Daniela, que dançava a alguns metros delas, ignorante de toda a confusão. Alma achou que era demais. E enlouqueceu.

A partir daí, tudo aconteceu muito depressa.

Natália e Daniela ainda estavam se beijando quando Alma me pegou e partiu para cima delas.

Alma era uma garota grande e forte, grossos braços peludos, masculinizada, e me pegou e partiu para cima delas. Ela me segurava com a mão direita e, com o braço esquerdo, separou as duas e empurrou Natália com tanta força que ela caiu. Então, Alma me segurou com as duas mãos e me usou para golpear Daniela várias e várias vezes.

Foi tudo rápido demais.

Na cabeça, sempre na cabeça. Ela me pegou e partiu para cima.

Acho (não sou um médico, sou um mero extintor de incêndio) que Daniela morreu já com o primeiro golpe, um barulho estranho, meio seco, meio molhado, como o de uma fruta grande e madura (uma melancia, talvez, ou uma jaca) se esborrachando na calçada. Com o primeiro golpe, de qualquer modo, Daniela já se estatelou no chão. Em seguida, meio agachada, Alma continuou a golpear e golpear (na cabeça, sempre na cabeça), até ser contida por três seguranças. Eu caí no chão e rolei para bem perto da cabeça estraçalhada de Daniela.

Havia muito sangue. O sangue era vermelho, mas não muito luzidio.

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