Tipo exportação

De DANIELA DOS SANTOS.

Tudo estava correndo muito bem. A sociedade estava crescendo, as consultorias gerando cada vez mais lucros. Já atuavam em parceria com mais de 200 municípios, o BNDES movimentando seu rico dinheirinho público para movimentar o país. Quem realmente tem cabeça para administrá-lo podia fazer empréstimos, e a consultoria é módica: cinco por cento. Dentro do grupo, cada um crescia devagar, porque esses mirrados cinco por cento eram divididos entre os membros. Comissão e pagamento pra todos, sempre, sempre justo.

Até mesmo os negócios de exportação eram discretos e silenciosos. Exportavam mulheres para o exterior.

Na verdade, o começo dessa exportação não foi tão discreto. Começaram com Margaret Thatcher, aquela mineirinha com sotaque roceirão, a quem ensinaram inglês na última hora, dias antes de ser exportada para a Inglaterra; o nome foi ela mesma que escolheu: Margaret, de Margarida, o nome da sua avó materna, e Thatcher, de teacher, que ela não soube escrever. Foi, sim, um início barulhento, preocupante para alguns, mas outros, mais confiantes, acreditaram que ninguém iria adivinhar de onde viera realmente a dama de ferro.

Para não repetir esse erro, os próximos negócios foram feitos com mulheres mais bonitas, com fins mais decorativos que funcionais. De Carla Bruni a Paris Hilton, de Aishwarya Rai a Beyoncé. Mulheres brasileiras exportadas pelo grupo. A Polícia Federal chama isso de tráfico. Tráfico de mulheres. Não tanto por essas glamourosas e importantes, que nunca chegaram a ser descobertas, mas pelas centenas de outras pequenas, que, por falta de outros dotes, acabam se prostituindo mesmo. Indignava os membros do grupo a falta de capacidade dessas moças em aproveitar a grande oprotunidade que lhes era oferecida, sair deste país de mamatas.

Mas corria tudo muito bem, até que a PF encabulou justamente com esse negócio pequeno. Um mês depois da queima de uma da porta no hotel-sede das exportações femininas, a PF fez uma busca e realmente encontrou mais do que cuecas sujas e estojos de maquiagem. Acabaram achando o tráfico de mulherzinhas vulgares e, muito pior, esbarraram no negócio de consultorias. No dia segunte, estava no Jornal Nacional. Dia vinte e quatro de abril. William Bonner. “Uma investigação da Polícia Federal sobre prostituição acabou descobrindo um esquema de fraudes com dinheiro público.”

William Bonner filho de… Ficaram só com raiva, mesmo, cada um em sua casa, com suas famílias, apenas xingaram o marido da Fátima intimamente.

Comentaram o fato no dia seguinte e o acharam curioso.

Na noite do dia vinte e cinco, tensão até o Boa Noite. Nenhuma palavra sobre o negócio deles.

No dia vinte e seis foi inevitável a imensa revolta. Duas vezes, duas citações na mesma edição. Sobre prisões e solturas. Disseram, nas duas vezes que, ”quando o dinheiro era liberado, 5% do valor era dividido entre a quadrilha.” Quadrilha. Quadrilha! Quadrilha, William! Quadrilha não!

Dessa vez o marido da Fátima tinha que parar. A Fátima, mãe dos trigêmeos. Não podiam deixar passar.

Na manhã seguinte, ofereceram ao casal a oportunidade de exportar as duas filhas compulsoriamente, definitivamente. Diante do horror e do espanto dos globais, o grupo ofereceu uma contraproposta: Que parassem de falar em quadrilha e corrupção, pelo menos que não falassem o tempo todo, que não ficassem apontando e incriminando a torto e a direito, que já é difícil demais sem imprensa manter um esquema revelado. Geralmente os acusados que não estavam envolvidos, depois que passa o grosso, vêm pedindo reparação por danos morais ao grupo. Não, Bonner, vocês vão ficar fora. E vão garantir que toda a imprensa faça o mesmo, ninguém vai ficar pegando no nosso pé em plantões urgentes, notícias especiais ou furos de última hora. Mas eu não posso fazer isso. Não tenho tanto poder. Sou só o editor-chefe do maior jornal televisivo do Brasil. 169% dos brasileiros acreditam na minha palavra, mas não tenho poder pra esconder algo tão grande. Não me importa, Bonner, quero nossas notícias em segundo plano! Não posso fazer isso. Não pode? Não. Prefere que suas filhas vão para Dubai ou para Nova Guiné? Espere! Sim? Eu faço, eu faço o que vocês quiserem, mas não sei como. Ora, encontre uma notícia mais importante. Fale do macaco Chicão, de árvores de natal, do aniversário do Yuri… Mas o aniversário dele é só mês que vem! Não me interessa: apenas encontre outra coisa de maior apelo popular.

Bonner passou o dia pensativo. Fátima estava apreensiva: pensou em algo cruel e sujo. Uma(s) menina(s) em Goiânia tinha sido torturada por uma empresária; a cada dia descobriam mais uma vítima. Talvez fosse uma boa, não? Não, amor: todos sabem que em Goiânia não existem empresários, e no interior essas práticas cruéis são comuns. Temos que encontrar uma dessas atrocidades, então, nas únicas cidades que existem no Brasil. Tem que ser no centro do Brasil: São Paulo ou Rio. Crime no exterior pode soar muito glamouroso. Madeleine nem fez tanto sucesso assim. Temos que achar uma maldade terrível bem rápido. Passaram aquele dia vinte e sete todo atrás de criancinhas levando prego no olho, tentaram dar publicidade à Video-chinelada do Chinelão, pensaram em levar ao ar um anúncio da Havaiana de Pau, mas nada. Estavam para perder a esperança quando, no dia vinte e nove, ela caiu do 6° andar de um prédio riquinho de uma cidade de verdade.

E assim, as gêmeas foram salvas e o grupo pôde continuar se esquivando da imprensa com discrição e requinte, como poucos tiveram oportunidade de tentar: Deputado, o que o senhor tem a dizer sobre a sua participação no esquema de consultoria do BNDES? Eu acredito que é uma atrocidade, uma maldade sem tamanho, quero que os dois paguem pelo que fizeram. Mas, deputado, o senhor acha justo que recebam pena de morte?

Boa Noite.

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