A morte do dr. Mamede – parte II

De HENRIQUE RODRIGUES.

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Manfredo perseguiu o vendedor por três quarteirões, entrando por becos e vielas, até se ver numa LAN-house onde adolescentes viciados dançavam polca e mordiam lápis sem pontas. Uma porta se fechou ao fundo, chamando a atenção do detetive, que correu para dar uma conferida.

A falsa porta dava para o balcão de uma livraria, na qual acontecia o lançamento de um livro, reunindo assim uma horda de pseudointelectuais e aproveitadores de canapés. Em meio ao tumulto, Manfredo viu que no chão estava o sobretudo e o pacote com as enciclopédias. Não restava nada a fazer a não ser tomar um vinho, no que o garçom, um homem japonês com leve sotaque nordestino, chegou-se a Manfredo e murmurou: “Quod tandem, Catilina?” Depois desapareceu na multidão, deixando o detetive ainda mais confuso, uma vez que detestara as aulas de latim, durante as quais ouvia o CD “Minuto de Silêncio – live”, gravado no último Rock in Rio.

Já tomado pelas veleidades etílicas, Manfredo lembrou-se de que ainda estava trabalhando, retornando ao local do crime sob pena de uma justa causa.

Um perfume barato tomava conta da casa, chegando a arder os olhos do detetive, que se espantou com um som horrendo de rinocerontes chupando cana. Na biblioteca, uma mulher com um xale lilás, óculos escuros e um vestido que parecia de aeromoça chorava convulsivamente sobre o corpo de Mamede. Manfredo pediu licença (de forma imbecil, como se não fosse a autoridade ali), a moça parou subitamente e voltou-se para ele: era Estelita, a monitora de Teoria Literária especialista nos formalistas russos.

Ao ver Estelita soluçando e demonstrando ser a pessoa mais carente do mundo, Manfredo relembrou da paixão não correspondida de priscas eras. A moça se levantou, abraçou-o e balbuciou um lamento em húngaro. “Devo possuí-la agora?”, indagou-se o detetive, oferecendo à lamuriosa um lenço sebento, o qual foi recusado imediatamente em tom de asco.

Dez minutos de conversa revelaram que Estelita trabalhava agora com Mamede, e como seria a sua substituta direta na universidade, Manfredo apontou-a como suspeita do assassinato, aplicando rapidamente uma bruta chave de braço na chorosa, que assim se fez com mais veemência. Os prantos de Estelita foram logo substituídos por uma fúria inesperada, fazendo-a revidar com uma pernada no seu agressor, para em seguida sair correndo da casa.

(continua)

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