Descarnaval

De MAURÍCIO MELO JÚNIOR.

Uma certeza.

Estaria morto quando alguém lembrasse o cinqüentenário das mortes. Vaga memória, mancha pálida, nebulosidade envolvendo o claro das horas antigas. Um fato que lhe roubara a ousadia de voltar à Cidade.
A mancha triste era nítida. Um sábado de carnaval onde se cantava a quarta-feira. Tantas cinzas.

Por mais de quarenta anos ficou atrás de um balcão orquestrando o que se dava naquele espaço medíocre. Filho de um país moderno, novo, otimista, nunca de fato voltou para casa. Instalou-se bem próximo, na capital. Tinha um bagaço de alma e algum dinheiro, o suficiente para montar uma bodega de ponta de rua e tocar seus dias sem mulher nem filhos.

Mais de quarenta e cinco anos.

Desceu no aeroporto e a memória lhe acendeu o som do primeiro tiro.

Não havia sábado, domingo nem feriado. Não havia carnaval. A Cidade insone se levantava num ritmo medido pelo bater de estacas, pelo martelar dos operários, homens reais a pregar, carregar, cimentar, soldar, erguer, fazer a vida, pois a prosperidade era uma ordem inconteste. O mundo para se conquistar apenas com as mãos tomadas de calos e dores. O suor do esgotamento a cada final de turno. E guardava-se o apurado para sair desta para melhor, deixar de martelar e construir abrigo seguro para o próprio corpo.
A esperança era peça viva que caminhava entre eles e a poeira infinda.

Um sábado de carnaval como este em que desembarca do avião. Agora, cinqüenta anos passados, só o eco das mortes. Tinha fortuna medida por anéis e roupas de corte perfeito. Longe ficou o tabaréu. Em seu lugar o homem de negócios e sucessos. Só o sábado era quase o mesmo. Ausente apenas a triste mancha de incontáveis corpos estendidos. A Cidade sem a poeira vermelha das construções, mas com o mesmo silêncio das marchinhas. O homem sem rastros de lembranças, mas com os mesmos medos e incertezas.

Cinqüenta anos na pontualidade do calendário.

Voltavam de um turno de trabalho, o homem e seus companheiros. Nos rádios uma marchinha falando do paletó de um certo defunto que já não cabia em mais ninguém. Uma alegria igual à vida daqueles dias. Todos, a um só tempo, falavam das próprias saudades, das mesmas melancolias, de futuras fortunas, certezas estampadas nos risos. Recompensas imaginadas. Assim sentaram para comer um feijão aguado, um arroz endurecido, uma carne gordurosa, uma farinha quebrada, um tempero avermelhado de barro.

Corria um táxi sem destino. O motorista, de princípio, estranhou seu pedido. Mostre-me a Cidade. Não tenho pouso, nem pressa. Mostre-me. No final da tarde traga-me de volta ao aeroporto.

Agora venciam as ruas largas e normalmente ativas. Os carros, as lojas, as casas, os homens e as mulheres funcionando normalmente.

Parou na entrada de uma quadra residencial. Desceu e respirou o ar bem arborizado e sem poeira. Um aposentado lia o jornal sentado ao lado da banca de revistas. Talvez tenha a mesma idade sua, talvez tenha vivido seus mesmos dramas, talvez tenha vindo somente aproveitar a Cidade já erguida do cerrado bruto, com a mesma ausência de sambas, frevos e maracatus. Nos trópicos, uma Cidade sem carnaval.

Estourou longe um barulho. Fogos de São João, carro desregulado, uma coisa qualquer. O homem despertou num sobressalto e voltou para o táxi.

Onde podemos almoçar? Uma comida simples me serve.

Na Vila. Lá tem uns restaurantes caseiros.

Então vamos.

Reconheceu as ruas mesmo tão mudadas. O asfalto, as casas de madeira substituídas por construções de alvenaria não apagaram as marcas do acampamento antigo, do espaço onde nasceram suas dores e medos.
No restaurante convidou o motorista para almoçar, mas pediu silêncio. Precisava mitigar o amargo de suas lembranças. E elas vieram depois de reconhecer o rosto envelhecido que se escondia além das janelas da cozinha. O mesmo homem.

O mesmo homem que reagiu ao primeiro protesto. Uma merda, alguém gritou atirando no chão o prato. Merda é o que me dão para cozinhar, respondeu aquele rosto que em meio século ganhou rugas e melancolias. E tudo o mais decorreu. Pratos e cadeiras atirados no chão. Gritos de insatisfação, uma rebelião justa e improvisada. Só não sabiam que faltava espaço para melosidades. Veio o primeiro tiro. Depois outros. Rajadas. Ao seu lado um homem caiu morto. Correu para o alojamento e se jogou embaixo da cama. Ouvia todos os barulhos. Tiros, vozes, roncos de motores. Podia deduzir tudo. Deduzia nada.

Com a noite veio o silêncio. Saiu com o que tinha. Caminhou o quanto pôde. Pisava com pés descalços um chão frio e pegajoso. Lama de uma chuva? Sangue de uma chacina? Encontrou um caminhão que seguia para Goiás e partiu.

Em cinqüenta anos, atrás de um balcão, ergueu fortuna. Dinheiro o bastante para vir conhecer a Cidade que quis construir e de quem legou um incontrolável medo, uma dor indomável, uma insondável descrença na humanidade.

Deixou o restaurante e passou o resto da tarde rondando os pontos agora turísticos. Era noite quando tomou um avião.

Voltou para casa carregando as mesmas e velhas marcas.

Outra vez sobrevivente, não tinha mulher nem filhos.

Já não tinha sequer certeza.

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