“It kept going”

De ADRIANA LISBOA.

Oscar “Mike” Manchester, 52 anos, morreu num estacionamento de trailers. O tornado que rasgou pedaços do estado do Colorado carregava pedras de granizo quase tão grandes quanto bolas de beisebol. No meu computador, o quadradinho do Weather Channel que me dá a temperatura local estava vermelho, em sinal de alerta.

Há um ano, persegui um filhotinho de tornado nos descampados do sul, entre o Colorado e o Novo México, de carro. O redemunho escuro redemunhava as folhas no chão e levantava poeira e de repente se desfez diante dos meus olhos como um espírito desencarnando. Para onde vai o tornado depois que se desmancha?

Em casa as coisas estão pela metade, livros dentro de caixas, objetos frágeis acolchoados entre toalhas e jornal amassado. Partículas em suspensão, alheias à lei da gravidade. O tornado que matou Oscar “Mike” Manchester passou a oitenta quilômetros daqui, onde tudo bóia e já não é enquanto espera para ser (de) novo.

O e-mail me pergunta: mas e o lago? Vai ficar sem? Confesso que nem é bem um lago, é só um braço subalterno de um reservatório, braço esse que no verão quase seca – mas que a esta época do ano, em revanche, acolhe peixes imensos, patos, um bando já familiar de pelicanos, andorinhas em vôo rasante pescando insetos.

Não vou ficar sem ele. Aqui, neste apartamento suspenso diante do primo pobre do Bowles Reservoir, diante de um naco das Rochosas e dos fundos da American Furniture (finge que não está lá) e das mansões-clones dos subúrbios americanos, nós fomos felizes apesar da vizinha de baixo, que batia no teto com o cabo da vassoura quando as crianças faziam barulho demais. E apesar do vizinho do lado e sua namorada fundamentalista que gritava repetidas vezes oh, my God! oh, my God! no meio da tarde, até que um dia sua voz se foi para nunca mais.

Nós fomos felizes. Rodando de bicicleta pela vizinhança alheia. Treinando para as corridas de longa distância de que, efetivamente, eu ainda não participei (mas já, não lembra? Ou você não acha que muitos eventos beiraram a maratona, e exigiram de nós mais do que dois pares treinados de pulmões?). Vendo escurecer cedo, vendo escurecer tarde. Escrevi três livros neste lugar. Li não sei quantos e traduzi mais alguns. Aprendi a preparar cogumelos portobelo.

O tornado rasgou o Colorado e o Wyoming e o tempo, levou Oscar “Mike” Manchester para esse nicho onde talvez também descansem os ex-tornados, os pós-tornados.

Uma empresa chamada Cowboy Moving vem levar os móveis cinqüenta quilômetros para o norte. A janela agora vai se abrir para as montanhas dos Flatirons. Lá em cima, em Boulder, todo mundo foi hippie um dia. A cidade ainda se lembra da passagem de Kerouac e Allen Ginsberg.

Não vou ficar sem o lago-reservatório, porque, como tantas outras coisas, e como aqueles quintais da casa do meu avô, ele agora é meu, amuleto, talismã, e vai comigo para onde eu for, até que eu suma do mapa e do tempo como um tornado que se dissipa, manso, sem deixar vestígio e sem incomodar os moradores nos estacionamentos de trailers. Como dever ser.

Adriana Lisboa, carioca (1970), é autora dos romances Sinfonia em Branco (Rocco – Prêmio José Saramago) e Rakushisha (Rocco), dentre outros. Mantém o blog Caquis Caídos.

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