Mel

De NEREU AFONSO DA SILVA.

Li recentemente no jornal sobre o dilema de um homem para o qual o recurso ao transplante, além de último, desagradava-lhe profundamente. Para ele, ter o coração de outrem dentro de sua cavidade torácica, bombeando seus mais ou menos 4,5 litros de sangue, de veia para artéria e de um lado para o outro, metia-lhe um medo danado. Medo do órgão desenervado não mais receber as costumeiras mensagens que até então lhe eram transmitidas pelas vias nervosas.
– Se o coração é idéia e memória, dizia ele, prefiro ficar com o meu do jeito que sempre foi: empedrado.
É que o sujeito (que a essa altura já era um pouco eu) começava a se dar conta de que o cimento que aglomerava aurículas, ventrículos, e o próprio septo musculomembranoso de seu centro vital, expandira-se tanto em seu corpo que, visto de perto, já saía pelos poros. E mais: sabia porque sabia que foi graças a tal cimento que um dia pôde delimitar a rigidez do território no qual sua existência se cunhou. O coração duro, gelado e engessado era a base e o reboco da fortaleza que, às tantas, por essas e outras, viu-se obrigado a construir para sobreviver. E agora, vejam só, “querem me sacrificar”.
– Meu senhor – disseram-lhe os médicos minutos antes de o homem entrar em coma – o que deveria lhe dar vida o está matando. Temos que transplantá-lo. É urgente. Uma vida nova o espera. Um novo pulsar. Um novo olhar. Novos afetos. Acredite. Há esperança.
Mas o homem exangue, resoluto face à fisionomia patibular de seus carrascos, olhos de areia, nunca respondeu.

Fechei o jornal e não fiz mais nada, nada além de lambuzar-me até as orelhas com uma enorme colher de mel.

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