O personagem real

De DHEYNE DE SOUZA.

As pessoas entram no ônibus e as paisagens repassam na janela a consciência de ir.

Mas havia um personagem real e arriscava ficções verossímeis sobre ele no tempo que jogava no nada quase todos os dias. A verdade é que foi traçando e, sim, juntando peças e possíveis itinerários. Vez ou outra, da janela incógnita do ônibus, o via, seu personagem real, a passos mais ou menos largos, a camisa quase sempre xadrez e o cabelo longo nunca solto. Às vezes próximo do ponto em que partia, às vezes nos meios dos caminhos. Não que seja exatamente aonde, enfim, chegaria, mas eram, até sua última visão, quarenta minutos de ônibus, por aí. A sua última visão veio com um, leve, susto. Algo como não acreditar que ele andaria aquilo tudo a pé. Ou não, por que motivo. Ele tinha cabelos longos, ele poderia ser comunista, definitivamente não era um atleta, devia ter feito Filosofia, ou Ciências Sociais, e não acreditava em Deus. Devia andar pra esquecer isso. Tudo são ficções, sua maneira de esquecer o abdome, de ignorar as taças na poeira, de passar quarenta e cinco minutos à-toa. O tempo gritando dos lados, dos óculos, da maldita rádio, dos desculpe olhar os teus seios é que são mesmo tão pequenos. Toque.

Mas um dia ele entrou no ônibus, ele veio. Na roleta ele riu para a senhora que lhe vendeu o passe e se embaraçou na bolsa. Não devia ser mau, uma pena.

A poltrona ao lado vazia.

E de lá a enquanto vinha, a elaboração da melhor forma, mais sucinta, de dizer-lhe, personagem real, que o vejo quase todos os dias em lugares diferentes, do ônibus, digo, a pé e são quarenta minutos, de ônibus, e onde, digo, por quê?, digo, não diga.

A poltrona do lado vazia.

Quero dizer, eu apenas fico pensando, quando não trago livro e esqueço de colocar outra pilha, cheguei tão tarde e cansada ontem, minha memória tem ficado tão ruim, nunca tinha esquecido as letras, antecipo as palavras, entende?, e então da janela as árvores a calçada as imagens perenes, digo, menos voláteis, não, que estão ali quase, digo, praticamente iguais todos os dias e como que você, entende?

Não, não posso, não vou dizer nada, não quero, não preciso, não merece, não sente, não sente. É um personagem, afinal. É preciso que eu acredite mais e desabone regras íntimas e projetos ultrapassados. É preciso que eu volte a acreditar, não que isso não seja inútil, ou ilusório, mas é preciso que volte a ser alguma coisa. Entende?

Mas ele se sentou na poltrona atrás, e não foi pela janela. Talvez a curvatura dos lábios amedronte, afaste, há sempre estatísticas fictícias, conjecturas, recalques. Mas parece que há algo que faz com que, nunca, sentem ao meu lado. Mas é claro que isso não deve proceder.

Não poder olhar para trás.

Ele desceu e atravessou na anhanguera. Meu personagem real. Não vou falar com ele nunca.

O grito tem encolhido tanto que às vezes, acho, estoura no pulso.

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