A diarista do Mago

De LÚCIA BETTENCOURT.

– Mago não é a mesma coisa que bruxo? Então, se é, posso apostar que ele é isso mesmo. Eu não entendo dessas coisas de feitiço, de bruxaria porque eu sou do povo de Deus, Jesus é meu pastor e nada me faltará. Até aqui me ajudou o Senhor, me dando saúde e trabalho. Na verdade, muito trabalho, que o patrão é muito bagunceiro. Todo o dia a casa amanhece coberta de pó; as roupas espalhadas, mas disso não me queixo. Lá em casa é a mesma coisa, o traste do meu marido deixa tudo jogado, e a poeira entra pelas frestas, fica tudo cobertinho de um pó escuro, meio avermelhado. Aqui não, até nisso bacana tem sorte, o pó de bacana é branquinho, parece que nem suja. Eu até pensava que fosse talco, de tão clarinho, mas cheirei e não tinha perfume nenhum, era pó, só pó. Depois fiquei com medo, agitada que só eu, passei o dia todo esfregando e pensando, nunca esfreguei tanto na minha vida. E se fosse coisa de feitiço? Porque aqui nessa casa tem cada coisa mais esquisita, que só mesmo entregando na mão de Deus, o todo poderoso. Eu lhe digo, aqui, por exemplo, só se comem umas coisas esquisitas, uns bichinhos estranhos. Estranho porque é estranho mesmo, até no nome. Um dia cheguei e vi que eles estavam comendo umas lesmas, só sobraram as casquinhas. Eu quase vomitei de nojo, nem queria mexer na louça, mas a dona patroa riu de mim, me chamou de boba e disse que aquilo não era nada coisa de bruxaria, que era uma comida de granfino, chamada excagô. Vê se eu um dia havia de comer uma comida com jeito tão nojento e nome de porcaria? Eu ainda perguntei para ela: ex o quê? E ela, na maior calma, repetiu o nome da nojeira: excagô, excagô, uma delícia! E queria que eu provasse, imagina! Dizia que era bom, com gostinho de alho, e ria, balançando aquela tacinha que eles chamam de flite, mas que não mata inseto nenhum, ou talvez até sirva para matar as lesmas excagadas. O que eu sei é que eles enchem as flites de champanhe, e tomam champanhe de manhã, de tarde e de noite. Eu até perguntei ao pastor se isso não era pecado, ficar tomando bebida o dia todo nas tacinhas flite, e comendo lesma com alho, mas o pastor disse que não, que isso não era coisa de demônio não, era coisa de rico, mas que, ao fim e ao cabo, vai dar tudo na mesma pois é assim que Deus castiga os que não param para glorificar a majestade do Senhor. Eles acabam se acostumando a comer e a beber as coisas vis. E deve de ser isso mesmo, que na outra vez eu cheguei bem na hora que eles estavam comendo sapo. Eles disseram que não era sapo, que era rã, mas eu acho que é tudo a mesma coisa. E dava até medo ver eles chupando os ossinhos da coxa dos bichinhos. Eles chegavam a revirar os olhos assim, ó, olha só se isso é maneira de se comer! Até as frutas que eles comem é uma coisa que nem parece fruta, uma tal de lixinha, que, desencapada, parece um olho cego, assim todo branco, escorregadia que nem essa nossa bolinha do olho, uma coisa tão estranha que eu nem acredito que dê em árvore. Mas só comem isso, isso e uns alpistes que eles misturam na vitamina, na sopa, na salada, em tudo o que é parte. E fumar? Como fumam, os dois. Uns cigarrinhos de palha, que deixam eles risonhos, riem à tôa quando fumam os tais cigarrinhos. Eu perguntei a eles porque é que eles ficavam fumando cigarrinho de palha, com tanto cigarro granfino por aí para vender. Tanto Malboro, tanto Carlton, tanto Free, uns cigarros de nome complicado, mas tudo bacana, com maço de caixinha e os cigarrinhos já prontos, com filtro e tudo, e eles ali com aquelas trouxinhas, num trabalhão danado de pegar aquele fuminho picadinho e de espalhar, e enrolar, e lamber, e torcer. A dona patroa disse que eu sou burra, que não é palha, é papel de seda, e que eu não entendo nada do que é bom. E o patrão riu e disse que eles fazem isso para tentar parar de fumar, que assim eles levam mais tempo, uma explicação que não me convenceu nada, até porque eles pegam as guimbas e guardam o fuminho que pegou, um fuminho que nem tem cheiro de fumo nem nada, parece mais um tempero. Mas, pior que isso, é quando eles resolvem fumar cachimbo, um cachimbo que parece de brinquedo, que nem tem lugar prá colocar o fumo, só tem um furinho, e eles cismam com aquilo, que no Natal eu dei de presente pro patrão um cachimbo que eu comprei lá no shopping, um cachimbo bonito de duas cores, assim encurvado, e ele nunca usou. E ainda teve a coragem de me perguntar porque é que eu estava dando aquele presente prá ele, se ele nem fumava…Vai ver que ele entra nesses transes aí de mago e fuma, e depois esquece tudo, e deve de ser isso mesmo, porque ele fuma essas coisa e depois dorme, ali mesmo na sala, ou na varanda, e a dona patroa também fica dormindo por lá e até as visitas, quando tem visita, eu chego de manhã e está tudo estirado, dormindo, nem escutam, posso até passar por cima deles que eles nem se mexem. Não admira que eles vivam doentes. Nunca vi gente tão cheia de mazelas, que Deus só protege quem é fiel, e que vai aos cultos todas as semanas! Louvado seja o Senhor, que não me deixa cair de cama nem precisar de injeção, pois como é que eu ia fazer, tendo que trabalhar na casa dos outros e ainda tendo que trabalhar em casa, porque meu marido, embora livre do vício da bebida, graças a Jesus, ainda não encontrou emprego, e só eu é que sustento a casa e visto as crianças. Que pelo menos o Pastor nos ajuda, e dá umas roupas para os meninos, que não param de crescer e estão toda hora precisando de sapato, e de baixar a bainha. Mas Deus é pai, e nada me há de faltar. Já para os meus patrões, nunca vi tanta doença, que eles não param de tomar injeção! É todo dia, eles pensam que eu não vejo, mas eu vejo tudo, e umas pílulas, tomam pílula todo o dia. Eu outro dia estava com dor de cabeça e perguntei a dona patroa se podia tomar um comprimido daqueles e ela riu na minha cara, disse que aquilo não era para o meu bico, que era tudo vitamina importada, e que se eu tomasse aqueles remédios que ia ficar com mais dor de cabeça que antes. Eu, se não fosse eles pagarem bem, já tinha pedido as contas há muito tempo, porque é difícil aturar ums patrões assim, tudo com jeito de coisa ruim. Imagine que a dona patroa resolveu pintar o meu retrato e me fez toda verde, como se eu fosse uma marciana, e ainda me deu o quadro de presente de Natal. E eu que gastei meu dinheiro comprando um cachimbo para ele e uma caixinha de talco para ela, mas um talco bom, perfumado, Alma de flores, tão cheiroso… E ela me deu aquele quadro horrível, todo verde, botou meus dois olhos de um lado só da cara, e me fez uma cabeça comprida, como se eu tivesse parentesco com cavalo. Fiquei até com medo que fosse feitiço e levei para o Pastor, mas ele disse que é arte moderna, e eu até dei aquele quadro horrível para ele, que eu prefiro não ter nada nas paredes a ter aquela cara horrorosa me assustando. Um dia eu acabo é pedindo as contas, que tem limite para aguentar essas loucuras de granfino, ou de bruxo, ou de mago, como andam chamando o patrão por aí. Só não peço é porque eles viajam muito, e aí o serviço é tranquilo, mole, mesmo. E não tenho mais nada a dizer não, nem sei de baú nenhum, que eu não ando mexendo nas coisas deles. Se o senhor quer abrir o baú, a chave deve de ficar ali na gavetinha da penteadeira da dona patroa, que é lá onde ela guarda todas as chaves, até a chave dos armarinhos de remédio, com aqueles comprimidinhos malucos de vitamina, que não deve servir mesmo para cabeça de brasileiro, porque deixa a gente vendo tudo colorido, e falando com gente que nem está lá. Mas o baú não tem nada não, nem vale a pena abrir, é só papel velho.

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