Noturno, imponderável e provação

De LEANDRO RESENDE.

Nada acontecia ali. Um casal falava de si, alto, mas sem assunto interessante o suficiente para roubar um olhar que fosse. Outras mesas vazias e poucas outras como a minha, com uma pessoa.

Mesas vazias dizem bem mais do que eu ou aqueles solitários, que vivem a reescrever após algumas boas doses a história de suas humanidades – doces individualidades manjadas de quase rufiões à espera de adversários que não fossem o sono ou a embriaguês, de quase vozes paridas de angústias moloídes, de quase perpétuas cadeias convenientes e almofadadas em casa ou no serviço.

Poucas almofadas, magras até, já bastam para premiar minha inoperância humana, minha revisão biográfica que esquematizo a meu favor. Todos os dias, reescrevo um capítulo da minha tão esperada-demorada glória vindoura e do passado e presente rasos que me formam único entre todos e tantos em tantos e todos locais. O foda é quando percebo que estou inteiramente contra mim.

Vou mijar, penso baixo.

Também já passava de uma hora da manhã, sem a noite dar sinal de que podia acabar, sem o dono do bar mexer um músculo no balcão, sem passar um carro na rua, sem o vento parar de tocar algumas pequenas e secas folhas espalhadas pelo asfalto ao mesmo tempo em que tocava alguma música morta no passado, sem algum pensamento se completar na minha cabeça.

Talvez amanhã eu ligue para o André e diga: amigo, fudeu, não rolou nenhum conto, fica para outra vez. Ele sabe como é. O cara entende, eu entendo. Faço sinal o dono do bar se move com uma nova garrafa de cerveja na mão. Desliza leve pelo bar pesado, de piso vermelho, cadeiras e mesas de ferro, um casal que fala, e dois ou três solitários que calam. No rádio, um locutor se ouve – ninguém além dele o ouve.

Vocifera um caixote de frases que tento grudar na minha memória. Nada, quase nada, fica. Ficam palavras soltas, como Noturno, Imponderável e Provação.

Noturno, Imponderável e Provação, eu repito. Obrigado, quantas bebi? Cinco, certo! Ah. Debaixo da mesa, desculpa. Não vi. Agorinha traz outra. O imóvel rosto do homem dono do bar moveu frágeis músculos, tiras de couro, bigode e cabelo saindo do nariz. O que faz um homem usar bigode?

Noturno, Imponderável e Provação, repito as palavras.

O casal passa da conversa aos gritos, ásperos momentos de seres locais, pensei. Todos somos locais, pensei em seguida. André, sou local. Noturno. André, não veio uma idéia. Imponderável. André, o que pode fazer agora? Provação. O casal troca as palavras gritadas por socos fortes e tapas bobos. Ninguém interfere. Alguns nem olham.

Num soco, o brinco dela cai embaixo da minha mesa. Penso um pouco, abaixo e pego. Levanto a cabeça pensando em devolver, mas resolvo esperar o boxe acabar. E logo pára uma viatura da polícia, que age rápido e algema o homem. A mulher também vai no camburão.

Fiquei com o brinco da mulher na minha mão.

Vou mijar.

Quando volto, olho no fundo do bar, o casal ainda está lá, discutindo, até baixo. O brinco está na minha mão e ela está com um par completo de brincos. O dono do bar não tem mais bigode, é magro, melhor vestido, e o bar está lotado. O locutor da rádio fala meu nome, fala sobre Deus e religião, e manda uma mensagem imbecil que não gruda. Diz meu nome de novo, com a boca boa. Local, somos seres locais. Eu e o dono do bar e o locutor e outros e todos.

Dizem nomes em todos locais. Os locutores, onde tem uma rádio, sempre dizem um ou vários – um monte de nomes. Em qualquer local tem uma mulher bonita tomando banho nua, um jovem se masturbando na internet, uma menina (hoje gorda) se admirando na fotografia de quando tinha quinze anos, uma loja, um riso e um choro, um gato, um peixe e cachorros comendo carne. Em qualquer local alguém escreve sobre si fingindo que não escreve banalidades, escreve e mostra para os amigos. Em qualquer local é assim, pessoas curvas e encavaladas durante o dia e esticadas na cama durante a noite. Em qualquer local um mais velho morre e um mais novo arrebenta violentamente a placenta da mãe.

Saio do banheiro e me encaminho para a mesa. O casal lá, discutindo. O dono do bar, ali, olha. Na mesma hora, pára um carro da polícia e os guardas discretamente entram no bar – vêm em meu rumo e me algemam. Argumento algo, eles não me olham. Vamos. Levo uma dedada no olho. Dói fundo. Fico quieto. “Posso ir ao banheiro, seu policial”

Vou e volto.

(Vou, mijo e volto).

O bar está calmo, como deixei.

Na mesa onde estava o casal que a polícia prendeu, copos espalhados, mesa torta (em meio à guerra verbal e corporal, ele havia dado alguns murros) e cadeiras jogadas para trás. Vejo uma gota de sangue, algumas gotas.

O dono do bar descongela e vem comentar comigo que prenderam a dupla brigona, mas ninguém pagou a conta, foram embora – presos.

“Será que não tem como você me dar aquele brinco. Talvez tem algum valor e posso recuperar parte do prejuízo?”

Claro, é seu.

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