Survivers

De DANIELA DOS SANTOS.

Bom dia, Fernando (a porta aberta) Oi, Carol (um sorriso) Entra, meu querido (senta na cadeira giratória) Como foi o fim de semana? (um leve giro pra esquerda) Tudo bem (uns olhos de sonda) Tudo bem? (uns outros de resposta) É. Tirando o Laci, tudo bem (sorriso meio compreensão, meio troça) O que aconteceu? (desabafo) Ele está doente, ainda. Acho que nunca vai sarar. Tá tomando muito remédio todo dia, mas continua tristão, abatido, não vai trabalhar nem nada, nem no hospital, nem cantando. Nem no banheiro ele canta mais. E ele já está tão bom, cantando tão lindo. Semana retrasada eu até pensei que era a própria Cássia que estava cantando lá em casa. E ele não indo trabalhar eu tenho que ficar explicando pra todo mundo o que está acontecendo e ninguém entende a gente. O diretor do setor já veio com umas conversas esquisitas pro meu lado ontem mesmo, de prisão por deserção, falando que a gente não tinha nem vergonha, que era mau exemplo. Eu acho que a gente não tinha que aguentar tanto preconceito. Já é tão difícil sem isso. (reticências) O que mais é difícil, Fernando? (toma um fôlego) Tanta perseguição, tanta coisa errada acontecendo, a coisa dos contratos irregulares, a gente vendo tudo e sendo perseguido por fazer o que é certo. Até paciente no hospital já veio me perguntar se eu ia no banheiro feminino ou masculino. Pode? Até paciente. Gente que não tem nada a ver com a minha vida querendo saber das minhas intimidades! (dobra o corpo pra frente, na direção dele) Mas vocês já sabiam que isso poderia acontecer quando foram à imprensa, não sabiam? (olhos pra cima, ombros pra baixo) Saber eu sabia, né, Carol, mas eu não pensei que seria tão ruim. Quando o Laci falava nisso eu pensava só na proteção que a gente teria se todo mundo soubesse. Que se a gente fosse conhecido da opinião pública ia ser muito mais difícil eles maltratarem a gente, muito mais fácil o pessoal dos direitos humanos defender a gente, muito mais fácil até de arrumar advogado, se for o caso. Mas sabe de uma coisa, se eu pudesse voltar atrás, acho que eu não teia deixado o Laci falar na revista. (já estava de novo recostada na cadeira) E esses benefícios que você citou, não aconteceram? (um meneio de cabeça) Aconteceram, sei lá, mas não foi suficiente. Eu achava que a carreira de artista dele ia decolar com todo esse frisson, mas não teve nada disso. Quer dizer, ainda. Hoje a gente vai no pograma da Luciana Gimenez. (uma cara de orgulho) É mesmo? Ao vivo? (friozinho na barriga de pensar) É. Entrevista exclusiva, mas eu acho que o Laci não vai cantar. (interrompendo (coisa que ela raramente faz)) Nossa, mas eu quero muito assistir vocês! Muito mais legal entrevista exclisiva ao vivo é muito mais legal. Que dia é? Hoje à noite? (meio sem graça, ainda) É. (curiosa, ainda) Então vocês vão viajar hoje?(quase à vontade de novo) Agorinha. O dia quatro de junho será lembrado como o dia da grande revelação! Falar nisso, é seu aniversário amanhã, né, Carol? (friozinho na barriga de pensar) É. Minha irmã está preparando uma festa surpresa pra mim. (interrompendo(coisa que ele faz até com freqüência, mas com respeito)) Que legal! (meio sem graça, ainda) É. (curioso, ainda) Quantos anos? (quase à vontade de novo) Ai, Fernando, isso é coisa que pergunte? Brincadeira, tem problema não: 28. Mas meu querido, muito boa sorte pra você na Luciana Gimenez, relaxa que você mesmo sabe que não estão fazendo nada de errado, vocês já tomaram providências pra garantir a segrança de vocês, e você já tomou as decisões que te cabiam, agora basta esperar e lidar com as consequências. E se foi o Laci que escolheu e você escolheu seguir a escolha dele, lembra que a escolha também foi sua. (olhos nos olhos, por segundos) Você é uma chata de ficar lembrando a gente disso. Obrigado, Carol. Até semana que vem. (sorriso igualzinho ao da entrada) Até semana que vem, boa semana pra você, bom fim de semana, boa entrevista ao vivo e muita força. Qualquer coisa me liga, que eu defendo você dos maus tratos. (olho arregalado, um pouquinho) Credo! Deus me livre maus tratos (mais séria) É verdade. Liga pros Direitos Humanos, eles podem te proteger melhor (um abraço) Feliz aniversário pra você, mocinha! (vai-se embora pra casa, pro aeroporto, pra São Paulo, pra Rede TV, ligar pro Condepe, de volta pra Brasília, pra senador, advogado, prisão, hospital, prisão, pro sapato como pedra, pra imprensa como um todo, pra história.)

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