A cena do crime

De MAURÍCIO MELO JÚNIOR.

Trazia a mesma velha serenidade. O olhar vago. O riso sábio de quem não fugiu às escolhas da vida.

Em tudo sentia o olor do novo, novidade.

Uma ala da velha biblioteca restaurada para abrigar os quatorze mil volumes que arrebanhou como prazer e sina durante toda a existência. Uma plena assepsia. Perderam o cheio característico de papel guardado que perfumou sua casa geminada, de arquitetura moderna. O milagre do restauro, da higienização, da sagração das raridades ordenadas com ciência nas prateleiras. Saudade da desordem bem comportada.

Acariciou as velhas e íntimas lombadas. Irmãs enfileiradas. A mão suave e de gesto firme.

Nunca acreditou em milagres. Quando aposentou, doou todo acervo à universidade. Por mais de dez anos esperou que a burocracia lavrasse todas as atas, todos os papéis necessários à confirmação do gesto simples de quem busca a segurança perene do único legado. Nunca bateram à sua porta.

Morreu lentamente, assistindo impotente o avanço paulatino e cruel da doença, com tempo para meditar sobre a vida vivida. Fora inútil? Morreu em sua solidão dando gritos mudos e afirmativos.

Ali paralisava a vida e começava a lenda.

Nos últimos anos se afastou dos amigos e da leitura. Faltava-lhe ânimo e resignação para olhar estes velhos companheiros; agora em roupa renovada, em casa nova. Apanhou, ao acaso, um volume qualquer. As dedicatórias alegres, otimistas, respeitosas como poderia ter sido a vida. A vida que poderia ter sido. Doses de saudades ao lembrar o verso de Manuel.

O real lhe impôs opostos.

Sentiu a necessidade do recolhimento quando, descendo as escadarias do cinema, amparado por um casal de jovens ex-alunos, encontrou um velho amigo. De onde mesmo o conhecia? Abraçaram-se com carinho. O homem o saudou pelo possível restabelecimento, se via que estava mais disposto, que venceria aquela peleja. E você? Como está? Tudo bem? Continua no mesmo lugar? O homem respondeu de maneira vaga suas vagas perguntas. Depois que ele se afastou, quis saber se os ex-alunos conheciam aquele amigo. É o jornalista. A memória voltava aos poucos mas subitamente se apagava, envolvia sua cabeça numa nuvem chumbo, pedia constantes socorros. Que filme acabamos de assistir?

De volta à casa se trancou de vez e sonegou a si o direito de ver as ruas. Viveria na solidão a decadência. Os braços não suportavam o peso das lembranças.

Agora, caminhando pelos corredores de livros, toda recordação era leve, não tinha motivos para pesar os ombros. Devotava o mesmo carinho e atenção ao baú onde acumulava os recortes arrancados dos jornais – canal por onde lhe chegavam homens e mulheres manchados ou imaculados – e que puseram no fundo da sala. Os passos já não traziam vacilos, mas mantinham a serenidade de quem não carece de pressa nem urgência. O paletó, a camisa, a gravata, os sapatos que o vestiram para o trajeto à sepultura, não faziam sentido. Aqui estamos todos nus, disse a Fernando um Otto onírico. O sabor das letras. Sim, renunciamos à capacidade de sentir frio, calor, medo, vergonha, dores. O mundo que tinha vivido já estava inscrito nos ditames da história. Talvez outros poetas cantassem suas parcas glórias.

Sim, colecionara algumas. Prêmios, reconhecimento da crítica, o calor das amizades, a sinceridade em tudo que realizava, os livros editados, o respeito dos ex-alunos. Pensou que tudo se transmutaria em cinzas logo que caísse na sepultura e no esquecimento. A inconsistência lamentada por oitenta e seis anos morria na solidez daquela obra. Seus amigos reais reunidos nas prateleiras e com garantias de permanência. Nada foi em vão.

Chegara à cidade de quem ninguém era filho e logo foi adotado. Deixava para trás, registrada no currículo, a carreira de lente internacional, de mestre nas universidades de além mar. Sentia sede de Brasil e vinha disposto a matá-la. Carlos lhe apontou o caminho, a necessidade de ser gauche e anjo torto nos amplos do cerrado. Nunca mais foi embora. Fez seu reino entre árvores generosas e bares repletos. Apenas de quando em vez sentia falta do mar, do porto com seus guindastes e os enxergava nos prédios em construção, na ruína da renovação, no céu de azul marítimo. O tempo somente adensou a dor das ausências que foi contabilizando. Os amigos e as juventudes perdidos caminho afora.

Dores e prazeres em sua Pasárgada.

Várias vezes a viu conspurcada por botas e tiros. A juventude retirada à força do Campus e a poesia como arma. Ônibus incendiados no pátio da rodoviária e a serenidade como indignação. A sujeira da miséria desdentada e o saber como bandeira. Olhava com desprezo as insanas decisões. Um nefelibata que acendia grafites nas nuvens. Nunca o ouviram. Então pra que serviu a vida? O mundo posto sobre uma mesa feita por artesão de mãos inábeis.

Abriu as páginas de um romance. Não lembrava por quantas vezes os olhos vivos percorreram aquelas páginas. Gastara os alcances da leitura na preparação de novos e ávidos leitores. Seu maior legado. E toda utilidade de sua vida naquelas páginas. Por elas, em favor delas rompera com pais e parentes.

Teimosamente viveu a intensa arte do prazer. Não faço nada sem prazer. Batia-lhe a assertiva de Montaigne.

E todo seu prazer preservado naqueles quatorze mil volumes. O hedonista podia descansar em paz.

Na saída apanhou o livro de registros e escreveu com letra anárquica. O criminoso volta sempre à cena do crime. Cassiano.

Riu da possibilidade de espanto de quem lesse a satírica mensagem.

A moça da portaria não o viu passar.

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