A morte do dr. Mamede – parte final

De HENRIQUE RODRIGUES.

[PARTE UMPARTE DOIS]

Manfredo saiu atrás da sua suspeita, mas ao abrir a porta deu de cara com o delegado Sepúlveda, seu chefe imediato, que chegava acompanhado por uma equipe de policiais que acabavam de prender uma gangue de pagodeiros ninjas.

Sepúlveda, olhando fixamente para Manfredo, cuspiu um chiclete, respirou fundo e declamou dois ou três hai-kais. Entrou na viatura, dizendo que os pagodeiros ninjas eram os culpados do crime, e que o esforço do detetive em buscar outras interpretações para o caso não passava de recalque de aluno reprovado. Estelita havia desaparecido.

Não contente com aquela solução, Manfredo voltou à biblioteca de Mamede e notou que na parede atrás de onde ficava a estante havia uma câmara falsa. Bateu forte com um dicionário de rimas, ao que se revelou uma caixa contendo os últimos lançamentos de Sidney Sheldon e Lair Ribeiro. Todos com ternas dedicatórias e autografados pelos autores.

O que Mamede fazia com literatura de quinta, contrariando a erudição que o consagrara por décadas? E se não sabia dos livros? Eram pistas falsas deixadas por criminosos, que teriam levado dali uma edição rara da Divina Comédia? Estelita procurava esses livros? Pretendiam apenas confundir as investigações? Manfredo ficou nervoso com tantas questões e foi à cozinha tomar um sal de frutas, que não caiu bem e o levou ao banheiro às pressas.

Mamede havia construído uma pequena estante ao lado da privada, na qual Manfredo não resistiu e iniciou uma breve consulta. Da prateleira de periódicos, folheou um exemplar da revista do Pen Club, até descobrir uma foto de solenidade literária. Nela estavam, lado a lado, Mamede, o delegado Sepúlveda e, ao canto, Estelita abraçada lascivamente com Lemos Peixoto, o dono da livraria onde o detetive estivera.

Esquecendo-se das práticas higiênicas fundamentais, Manfredo fechou as calças rapidamente e foi correndo para a livraria.

O lançamento foi interrompido pela chegada do detetive, cuja presença conferiu ao ambiente um ar nauseabundo e pesado. “Por que todos me evitam?”, pensou o detetive, reavivando traumas infantis. Mas ainda assim pegou canapé e vinho.

Algo não estava certo. Manfredo sentiu a garganta secando e um regurgitamento das entranhas, cambaleando para a esquerda. Apoiado na estante de auto-ajuda, só teve tempo de murmurar “Fui envenenado!”, antes de perder os sentidos.

O detetive Manfredo recobrou os sentidos no porão da LAN house. Com mãos e pés atados e uma lâmpada de 100 pendurada a 10 cm do rosto, era possível apenas ver alguns vultos na escuridão da sala. Um se aproximou. Era ninguém menos que Mamede, que revelou o plano de se pegar o seguro e se dedicar ao submundo dos best-sellers. “Que decepção!”, gritou Manfredo, sendo em seguida torturado por Estelita, que lia com sua voz de pato trechos do último livro de Paulo Coelho. Tudo ao som dos pagodeiros ninjas.

Quinze páginas de Paulo Coelho fizeram de Manfredo um viciado em games de tiro. Puseram-no na frente de um PC junto a adolescentes, que provavelmente já haviam sido torturados como o detetive. “Você fede!”, bradou Estelita, cuspindo para o lado e limpando a boca num lenço rosa.

Quando todos voltavam à livraria, um esquadrão de poetas tísicos invadiu a LAN house de assalto, tossindo bacilos nos bandidos literários, que tombavam verdes de imediato. Por último entrou o vendedor da Barsa, que se revelou o delegado Sepúlveda e exorcizou Manfredo com trovinhas populares.

Era hora do almoço e tudo parecia tranqüilo. Mas em algum canto da cidade novas páginas de mediocridade certamente eram digitadas ao ritmo de cata-milho. Manfredo não ficaria desempregado nem tão cedo.

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