Factóide

De ANDRÉ DE LEONES.

O senhor ministro adentrou a cozinha. A porta da sala estava fechada porque a sala estava sendo usada como quarto por quatro dos nove moradores do barraco. A pequena mulher o esperava junto à mesa, de pé, uma garrafa cheia de café recém-passado à espera. Chorava. O senhor ministro adentrou a pequena cozinha e as câmeras e os repórteres mantiveram-se à porta. O senhor ministro abraçou a pequena mulher no meio da pequena cozinha, os dois de pé junto à mesa. Ele a abraçou com força. Ela não teve forças para retribuir o abraço. Em seguida, ela pegou um copo, ex-embalagem de requeijão cremoso, pedaços do adesivo aqui e ali, e serviu um pouco de café. Sem açúcar, disse o senhor ministro. Ele tomou um gole de café e a pequena mulher balbuciou: Só não quero que fique impune. Não vai, disse energicamente o senhor ministro. Estou aqui justamente para que isso não aconteça, para que não saiam impunes. Um flash espocou, cegando a pequena mulher momentaneamente. Outros espocaram em seguida, focalizando o senhor ministro com o copo de café na mão fitando a pequena mulher. Era o meu filho, ela disse. O único. O senhor ministro bebeu o restante do café e colocou o copo vazio sobre a mesa. A mulher recomeçou a chorar. Meu filho, balbuciou. Meu filho. O senhor ministro a abraçou mais uma vez. Mais flashes espocaram. Ela se desvencilhou. O senhor ministro respirou fundo e repetiu: Não vão ficar impunes. Em seguida, fez menção de sair. Os repórteres começaram a desobstruir a porta. A pequena mulher ergueu os olhos e encarou o senhor ministro. Obrigada, disse. Por nada, respondeu o senhor ministro. O café da senhora é muito bom. A porta estava desobstruída. Os jornalistas se dirigiam para a casa seguinte. O senhor ministro disse adeus e desapareceu. A pequena mulher sentou-se à mesa e empurrou com a mão o copo vazio até ele cair no chão e se espatifar.

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