Caindo na real

De LÚCIA BETTENCOURT.

Acabo de ver a zeladora de meu prédio morrer atropelada.

Chocante.

O que eu ouvi foi o barulho dos freios e um ruído fofo – Plocufutch. E aí se fez um silêncio que durou pouco, talvez só uns dois segundos, mas que foi o bastante para eu compreender que alguma coisa séria tinha ocorrido.

Olhei para o lado e lá estava o mendigo bêbado que frequenta a rua e dorme entre caixas de papelão. Ele estava no meio da rua e parecia estranhamente sóbrio, como se tivesse sido despertado de um pesadelo. E, meio de lado, um carro de entregas, dessas caminhonetes pequenininhas, brancas, com uns desenhos na lateral, indicando os produtos. Eram medicamentos. Remédios que prometiam o alívio de todas as dores.

Não vi a zeladora, que estava no chão, talvez ainda viva. Vi o mendigo e a caminhonete, numa cena congelada. E aí tudo começou a acontecer de uma só vez.

O motorista da caminhonete saiu de dentro do carro, deixou a porta escancarada e o barulho do sinal de porta aberta ficou tocando: tlin, tlin, tlin insistente e ritmado, até que alguém lembrou de meter a mão no carro e virar a chave. As pessoas fizeram uma rodinha em volta do carro, e ficaram olhando para a mulher que olhava fixamente para um ponto no meio da multidão, sem ver ninguém.

Foi a primeira vez que reparei na cor dos olhos dela. Um verde meio amarelado, uma cor indefinida, opaca. Mas o opaco talvez fosse da morte. Porque ela estava morta. Ninguém mexeu na mulher, mas a gente via que ela estava morta. Os olhos baços. O pescoço meio torcido, endurecido, a boca prestes a gritar alguma coisa. O chinelo do pé direito tinha saído de seu pé, e estava do outro lado da rua.

Alguém trouxe um pedaço de plástico e cobriu sua cara. O mendigo voltou para suas caixas. O motorista repetia que ela tinha se jogado na frente do carro, que não era culpa dele. Fiquei esperando que o corpo de bombeiros chegasse, mas o que chegou foi uma patrulhinha da PM. O guarda olhou para a cena, mas não se aproximou do corpo. Puxou um caderno e foi falar com o motorista.

Eu fui para casa. Subi, sem falar com ninguém, entrei em casa e fui direto para o banheiro, vomitar. Era a primeira vez que eu via um morto.

Tomei banho e troquei de roupa. Fiquei sentada na cama. Não quis almoçar. Não falei com ninguém.

Quando o japonês do terceiro andar veio me avisar que a porteira estava morta, minha mãe se assustou:

– Quem morreu?

– Dona Maria – ele respondeu. Depois, ao notar que minha mãe não sabia de quem se tratava, esclareceu:

– A zeladora.

– Ah, pensei que fosse alguém. – respondeu minha mãe, aliviada. E foi para dentro.

Eu fiquei olhando para o rosto redondo, e para os olhos que pareciam nos espreitar por entre persianas. Quando o silêncio já havia se prolongado mais do que o natural, ele disse:

– Precisava contar para alguém.

E depois ele foi embora. Não sei se ele ouviu o “tá”, que foi tudo que consegui dizer.

Deitei no chão do meu quarto, tentando imitar a posição da morta. Tentei ficar sem respirar, com os olhos abertos olhando fixo para a parede de meu quarto, enrijecendo os músculos do pescoço, a boca prestes a gemer. De tanto ficarem abertos, meus olhos começaram a lacrimejar. Acabei chorando. Era minha primeira morte.

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