Lirismo selvagem

De DANIELA MENDES.

A cortina fechada hermeticamente para proteger do lá fora: durex prendendo o pano aos cantos para evitar qualquer fresta de rua. No caminho até a privada os seios pareciam duas toneladas de chumbo cada. Faltava-lhe o frescor do colgate tão prometido em comerciais. O confort não ensinava a toalha a fazer carinho. Na sala, o blue da televisão explicava a boca cariada de tanto final feliz de folhetins. No chão, papéis amassados em bola como poças de encanto escorrido pelas coxas. Ela escrevia no escuro, desenvolvendo a arte de ser parasita de si mesma. Ah, a verdade! Quimera que a todo custo tentava domar apesar da duração frágil de cada segundo. Talvez por isso o quarto tremia quando lá fora um caminhão rugia.

Um dia o gato que só vestia negro se fundiu na penumbra. E ela também quis se dissolver assim numa coisa preta. Daí o café estar tão delicioso ao som de um grilo, que com toda força silenciava o mundo. De repente, teve um ímpeto de sair, foi até a porta, mas desistiu. Apenas verificou o olho mágico. A televisão pifou… Um téc assustou. Tudo mais ficou escuro, e ela vacilou o olhar para dentro do apartamento. Uma pergunta se fez em um plóc te plóc te plóc. E a resposta vinha do buraco da porta cheio de luz: dentro da pequena circunferência um cavalo esperava o elevador.

Quase parou de respirar tamanha a agitação do motor. É que nunca sabia se ficava com o espanto ou a admiração. Ora, um cavalo branco! Com crina escovada tal qual um véu. Voltou para a cama como se conseguisse por um segundo segurar o coração nas mãos. Mas ele viera foi pra boca, donde deixou um sorriso bobo de quem finge que assiste um teto.

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