Cinza

De DANIELA DOS SANTOS.

Acordou meio cinza e translúcido naquele dia. Deve ter sido por isso. Só pode ter sido por isso. Velho e cansado. Era assim que se sentia. Devia ser um dia normal, qualquer dia, mas não o foi, porque estava cinza, translúcido, velho e cansado.

Café. Trabalho. Almoço. Mais trabalho. Tudo mais real e colorido, mais jovem e disposto que ele. O que era aquilo, ele pensava com seu cérebro que quase desaparecia no escuro da cabeça, às vezes. A morte chegando, alguém brilhante e reluzente disse com um sorriso de troça. O sorriso dele amarelo e acinzentado. Alguém em pânico pensou isso. A cabeça cinza dele balançou pesada. De asfalto. Sou de asfalto.

De volta pra casa, ele tinha certeza de que voltaria pra casa. Chego em casa hoje. Andava na penumbra de verdade e pensava. Chego em casa hoje. Trieiro de terra passando por baixo dos pés acinzentados. Começou a perceber uma listra larga e esbranquiçada no meio do corpo, atravessando todo o lado esquerdo, da cabeça cinza aos pés cinza. Não sou de asfalto. Falta a brita. Falta o piche. Sou de carne.

Atravessar a faixa de pedestres. Na estrada. De asfalto. Notava-se mesmo certa semelhança entre ele e o asfalto. Sou de carne. Pensou mais uma vez, satisfeito. Vinha um carro vermelho. Entrou no carro. Sou de carne. Pensou de novo. Sem segurança. Sou de carne? Perguntava-se e duvidava de cada resposta. Queria perguntar para o motorista o que ele achava, mas sentiu medo de que respondesse não. Pior. Ele poderia não saber também a resposta. Guardou para si sua dúvida. Eles entraram na cidade. O homem cinza, o motorista e o carro vermelho. O motorista quis comentar o ventinho puxando sua camisa pra trás, mas não disse nada.
O carro vermelho continua sua rota até o portão da casa. Casa do motorista. Ele brilhante, colorido, jovem, cheio de vida. Era assim que se sentia. Devia ter sido um dia normal, qualquer dia, mas não o foi, porque seu carona estava cinza, translúcido, velho e cansado.

Um corpo! Foi o disse quando o viu no banco de trás. Um corpo no meu carro! E o homem entendeu. Soube a resposta. Era de carne. Mas não era mais a sua carne aquela no banco de trás do carro vermelho. Por isso aquela dúvida. Por isso não podia afirmar ser de carne. A carne estava atropelada e morta no banco de trás do carro vermelho. Estava tão cinza e translúcido que o motorista no carro vermelho não o vira. Claro. Atravessou a faixa de pedestres. Aquela mesma faixa branca desenhada do lado esquerdo do seu corpo de carne. Faixa de pedestres. Estava tudo muito claro, agora.

Se pudesse, teria agradecido ao motorista por esclarecer sua dúvida. Podia voltar pra casa, agora. Podia voltar a ser colorido, jovem e cheio de vida. Brilhante. O pânico em seu pensamento partia de cabeça nenhuma, agora. Se pudesse, agradeceria ao motorista. Não pôde porque ele já tinha saído. Ido à delegacia de polícia. Muito normal. Mais um pensamento diluído no espaço que o ocupava. Se encontrasse um corpo de asfalto e carne no meu carro, faria o mesmo.

Parou de pensar e foi pra casa.


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