O soco

De NEREU AFONSO DA SILVA.

Há três horas levei um baita soco!

Mais do que descrevê-lo, mais do que informar-lhes as circunstâncias do ocorrido, mais do que suscitar-lhes a piedade, o ódio ou a indiferença, eu queria – se fosse capaz – apenas identificar a estrutura molecular do sentimento que, depois do golpe, me abrangeu.

Dizer que é um sentimento que me pôs por terra não garante coisa alguma. Poderia recorrer ao Houaiss, onde uma quantidade de termos mais ou menos sofridos e mórbidos, um mais oco do que o outro, apresentam-se à minha mudez.

Digo mudez porque, no meu caso, a fraqueza na voz é o primeiro sintoma que aparece quando beijo a lona. O chão duro, o fundo do poço (ou, se preferirem, a falência completa da felicidade) não são lá muito fecundos em ecoar sons congruentes, vocês não concordam?

O fato é que foi um belo baque.

Um impacto que há três horas me deixa assim: balbuciando e acreditando que na inconstância, na improdutividade, na incoerência do balbuciar reside alguma solução.

Vai saber!

Mas o que eu queria mesmo, eu repito, era tão-somente identificar a estrutura molecular do sentimento revelado pelo soco. Não para desenhar o sentimento. Não para traduzi-lo. Não para transportá-lo envernizado ou transfigurado a vossos olhos nestas linhas. Nada disso. Mas apenas para quebrá-lo em sua raiz, alterar-lhe a direção, enganá-lo, destruí-lo e simplesmente ter a esperança de livrar-me de vez do que nele ainda me transborda.


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