Direito do consumidor

De LEANDRO RESENDE.

Lia está cansada. O calor e a baixa umidade, sala sem ar condicionado, uniforme grosseiro. Nossa, o dia não passa, reclama ela. Atendente do Procon há vários anos, quando tem poucas ou nenhuma ligação, sente falta, o dia não passa.

Levanta vai até a copa para tomar café. Passo pesado e lento. Pensa no quanto piorou depois que transferiram a sala das atendentes – ela e Josiana – para o fundo, perto do arquivo. Aliás, quase um arquivo, pois a salinha já recebe as centenas de pastas que não cabem mais na sala vizinha.

Na hora que Lia pega na garrafa para colocar o café, o telefone toca.

“Merda, merda, merda”, resmunga e sai correndo para atender, sem tomar o café.

“Procon, atendente Lia, boa tarde.”

“Boa tarde.”

“Com que eu falo?”

“Maurício. Maurício de Melo.”

“Em que eu posso ajudá-lo?”

“Eu comprei um produto e ela está com defeito. Comprei pela internet.”

“Sim. Mas faz quantos dias?”

“Tem uns dois anos.”

“Sei. Mas o senhor já entrou em contato com a empresa?”

“Sim. Eles me trataram mal, disseram que é paranóia, que já passou o prazo de reclamação. O negócio é que a boneca estragou, sabe”, diz ele, meio encabulado.

“Mas, seu Maurício, o senhor está ciente que é complicado de conseguir derrotar a empresa neste caso? Dois anos é um tempo bastante alongado. Que idade tem a filha do senhor?”

“Eu não tenho filhos, moro sozinho. Eu e a Morgana. Na verdade, a boneca é minha. É uma boneca inflável, minha companheira. O problema é que ela perdeu o gemido. Ela gemia, agora faz um barulho rouco, uma coisa de doente do pulmão. Parece que no meio do sexo ela vai soltar uma gosma verde ou preta, sei lá.”

“Entendo senhor.”

“O pior é que me apeguei a ela, a Morgana. O nome dela é Morgana. Não quero trocar, só quero arrumar ela. Eu gosto muito dela, mas estou com nojo de transar com ela. E percebo que ela sente isso. Sei que é complicado falar assim, eu mesmo não gosto desse assunto, é pessoal. EU poderia comprar outra, mas eu gosto dela, quero que eles a conserte.”

“Claro, senhor. Não se preocupe, eu quero lhe ajudar. Conte-me do defeito do produto.”

“Desculpe-me Lia, Morgana. O nome dela é Morgana.”

“Sim, claro. Diga-me do defeito da Morgana.”

“Durante o ato, eu vinha observando um desânimo na voz, no gemido dela. Antes era diferente. Sei que na vida normal, isso também pode acontecer. Mas, No manual, está escrito, bem claro, que tem capacidade de uso irrestrito por cinco anos. O produto é da China – mas ela não tem cara de chinesa, parece brasileira mesmo, com bocona e bumbum bem nacional. No manual, é em inglês, eu leio bem, também diz que o sistema elétrico interno dela não prevê qualquer som que não o gemido especificado. Tipo UmhmAhAhAhUmhm UmhmAhUmhmUmhm UmhmAh AhAhUmhmAhAh, entende? Agora, ela faz RuuRonUmhRuuRon o tempo todo. entende?”

“Claro, senhor. Estou anotando”, diz Lia.

Depois de um silêncio breve, a atendente pergunta.

“Mas, senhor, quantas vezes praticava com ela por semana?”

“Todos os dias.”

Silêncio mais longo.

“Vamos notificar a empresa, senhor, e pedir a troca do produto. Passe-me os dados do…”

“Não, espera aí. Eu não quero trocar. Prefiro ela do jeito que está do que outra nova.Você trocaria seu marido ou namorado?”

“Eu vivo sozinha, senhor.”

“Tudo bem, mas eu não quero troca. Quero que tirem essa rouquidão. Só isso.”


%d blogueiros gostam disto: