Liquidando o casamento

De HENRIQUE RODRIGUES.

“O casamento é a única aventura ao alcance dos covardes.”
Voltaire.

Em nenhuma das vezes em que o meu ônibus passava em frente ao cartório eu costumava reparar nele. Talvez por ser aquele lugar um antro de burocracia, coisa da qual a minha mente procurava distância após o trabalho. No entanto, devido a um acidente ocorrido mais a diante, o trânsito deixou de transitar por uns minutos, e pude então fixar os olhos no que se passava lá fora (olhando da janela do ônibus, temos aquela sensação de Deus só porque ficamos um pouco acima: passivos observadores). Não sei se aconteceu somente naquele dia ou se era uma prática rotineira, mas pareceu-me esquisito o cartaz na frente do cartório com os dizeres

PROMOÇÃO: CASAMENTO
DE R$ 80.00 POR R$ 30.00

Era espantoso. Não o fato de o desconto ser de cinqüenta reais, mas a extensa fila que se formava. Agentes matrimoniais — que àquela hora passavam a ser também patrimoniais, por assim dizer — instalaram pequenas bancas na calçada oferecendo seus serviços. Pessoas vinham de todas as partes, acompanhadas ou não, interessadas somente no preço, já que hoje em dia não se pode perder uma liquidação. Os que vinham sozinhos faziam acordo com outros igualmente solitários, formando casais de aparência, que iriam apenas assinar a papelada e depois seguir cada um para seu lado, felizes por terem aproveitado a oferta. A ocasião faz a promoção.

Quando a fila do cartório superou a da lanchonete fast-food que funcionava ao lado, os funcionários (do cartório, obviamente) deram pulos de alegria por terem alcançado a meta. Surgia, então, o fast-marriage. Estava claro, pelo menos para mim, que olhava distante: se o casamento falira como instituição, eis que voltava à cena como produto de consumo. O tabelião sorria satisfeito enquanto maquinalmente carimbava sua assinatura nas certidões, que formavam pilhas. Uma menina adiantava os processos na fila e anotava os pedidos: 1) comunhão universal de bens, 2) declaração de união estável, 3) separação parcial de bens ou 4) participação final nos aqüestros. Peça pelo número!

Eu estava no ônibus, só de passagem com a minha solteirice convicta e ratificada. Para aproveitar o preço baixo de valeria a pena abrir mão das benesses de uma vida desregrada? Como bom estrategista, fiz os cálculos incontinenti e concluí que sairia no prejuízo em médio prazo. Parei de olhar a moça que ligava para a amiga comentando da promoção e voltei com o olhar analítico para a cena.

Tão logo o trânsito estivesse limpo e novamente correndo, um dos casais subiu no ônibus, sentando-se no banco à frente do meu. Alguns minutos depois começavam a discutir e até pipocaram tapas, vindos de ambas as partes. É provável que os advogados também faturassem tratando dos divórcios, e portanto deveriam providenciar o quanto antes os seus cartazes da “promoção da separação”. Leis de mercado.


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