Madame Thierrée

De SUSANA FUENTES.

Seus olhos vivos, atentos, sua postura tranqüila, mas alerta, como a de um gato que sabe estar em repouso e ao mesmo tempo atento, das orelhas às pontas dos pés. Foi assim que a reconheci. Do Programa do Jô, foi assim que se fixou em mim sua entrevista. Menos pela lembrança do rosto, mais por sua forma de escutar e ouvir, a humildade surpreendente tendo em vista a artista que é. Pequena, simples, iria apresentar-se uma noite no Municipal. A neta do Chaplin, como a apresentaram, é uma artista múltipla que se reinventa por ela mesma, sobe nas cortinas, grande, sai de dentro de gavetas. Um espetáculo de quem levou a vida sempre nas artes, já seus pais traziam no repertório espetáculos que rodavam pela Europa há anos.

Entrando no Nova Capela depois de descer de Santa Teresa, pedi o mais em conta: meio cabrito simples. Era para comemorar o esforço da semana, projetos entregues, trabalhos de mímica na cidade. O garçom olhou, éramos duas, ele disse:

– Mas é porção para um. E simples, sem acompanhamento?

– É isso mesmo, imagine que é só um petisco.

Minha amiga tinha ido ao banheiro e quando voltou encontrou-me nervosa.

– O que foi? Muito barulho?

– Não é isso. É que ali esta a Thierrée, de quem tinha acabado de falar.

– O quê? Não é ela não.

– É sim… Ah, não sei.

Não saberia dizer pelo rosto, é diferente vê-la ali, ao vivo, na mesa do Nova Capela, e vê-la na TV, assim um pouco de lado na poltrona do Programa do Jô. Eu queria perguntar, mas imagine… começar a falar em francês… e não ser ela.

– Ora, no máximo vão achar que a francesa é você.

Olhei para os amigos dela na mesa. Podiam ser brasileiros, cariocas, artistas de Santa Teresa ou da Fundição, era um dia especial, Santa Teresa de Portas Abertas e muitos jovens nas ruas. Minha amiga, roteirista de cinema, com os cabelos cheios, sem corte (os amigos reclamando: quando vai cortar?, e outros achando o máximo a extravagância), ali na Lapa, nem chamava a atenção. Nenhum olhar de espanto ou reprovação. Naquela tarde estava gente que não segue a moda, segue a banda, sobe a ladeira, todos convivem: é o acordeom, o trombone, a tuba, o surdo e o saxofone.

– Ah, mas é ela, sim, só pode ser.

O que me havia impressionado na entrevista era aquele olhar em repouso e ao mesmo tempo tão vivo.

A roteirista enfim deu o comando:

– Vá lá e fale com ela!

Era daquela ordem que eu precisava. Já se movimentavam para ir embora, aproximei-me e aí… pronto! Eu estava lá:

– Madame Thierrée?

– Ah…! oui.

Era ela. O espanto foi de nós duas. Já nos encontramos na Europa?, ela quis saber. Não, respondi, vi você aqui na televisão, no Programa do Jô, trabalho com mímica e circo, fiquei muito curiosa. Ah! Vou apresentar-me aqui no Rio na próxima semana, continuou em francês. Enquanto eu dava um suspiro, minha amiga perguntou: ainda tem lugar? E de repente a artista estava anotando os nossos nomes no caderninho que tirou da bolsa, um caderno pequeno e grosso de folhas brancas, desses cadernos que às vezes trazemos de anotações pessoais, que numa viagem são nosso tesouro. Folhas que recolhem o que depois vai tomar vida mais à frente: uma idéia, uma lembrança, uma visão do dia.

Na verdade, pediu-me para escrever, foi isso, foi minha letra que ficou lá, na página em branco.

– Lundi…? Dimanche?

Ainda pude escolher:

– Dimanche!

Os amigos esperavam mais à frente, sorriram para nós diante do inusitado do encontro, demos tchau e caí na cadeira com uma felicidade dessas em que a gente não pensa, só se deixa estar. Hoje é sábado e aguardo, em meio a todas as coisas por fazer, bate um sininho e lembro-me: este domingo será Dimanche.


%d blogueiros gostam disto: