Um homem, o derradeiro

De MAURÍCIO MELO JÚNIOR.

A ausência de calendário vagava na terra. O vazio.

Canta solitário um maracá e a cidade avança sobre o espaço das árvores retorcidas. Um resto de mata esmagado pelo asfalto rasteiro e necessário. Vento de redemoinho e o barulho intenso do trabalho dos homens. Caminho inexorável da civilização.

Era manhã, seus princípios, sem sol sequer, quando Suirá apanhou o último tronco da mata anterior. O cerrado desbastado e o vasto tapete vermelho de poeira e terra. Desolação agravada com a vinda da fervente claridade de agosto quebrada somente pela sombra dos edifícios que brotavam de sementes poderosas. Uma cidade avança na direção da oca derradeira.

Todos foram embora. Eram vinte famílias ainda ontem, quando cortaram os primeiros matos. No mesmo passo chegaram os homens com paletós, pastas e documentos e os moços com camisetas, mochilas e megafones. Uma gritaria que Suirá pouco entendeu. Ali mesmo se acordaram, carregaram as pessoas, cortaram a mata, planaram o terreno, plantaram as sementes dos edifícios. Cada qual foi para seu canto e interesse esquecendo o passado daquele dia estranho. Suirá, sozinho, viu se erguer um novo pedaço da cidade. O pedaço que o oprimia.

O sol se punha cobrindo a terra com a negra melancolia da noite. Barulho de máquinas e homens. Suirá cantou com o fôlego que guardava nos pulmões. Balançava o maracá e dançava pelo terreiro que ainda era seu. Agradecia aos deuses de sua crença a bonança dos anos passados e o dia em que chegou àquele resto de mata esquecido pela cidade já feita. Há muitas luas viera caminhando da distância de sua gente na busca de uma cura que o governo dizia só se encontrar na cidade. Como não encontrou cura nem respeito, procurou o mato mais próximo, o ideal de viver germinando e colhendo o próprio pão. Depois vieram os outros – as vinte famílias – tangidos pelas mesmas necessidades e descasos. Pioneiro foi Suirá, o último, o que tinha teimosia no peito e já ninguém na terra.

Achou que os deuses de sua crença não ouviram seu canto, não perceberam sua dança. Havia o barulho das máquinas, o movimento dos homens, o clarão das luzes madrugada a dentro. Muito o que se notar e admirar.

Sem parar o canto, apanhou o tronco, o último, e nele retalhou com a quicé o totem ancestral. Um rosto vivo, um penacho, uma cintura marcada pelo vermelho do urucu. Pesava-lhe nas costas a madeira e rigor dos anos enquanto corria pelo terreiro onde as sementes dos edifícios tardavam em brotar. E dançava, dançava, dançava. E cantava, cantava, cantava. Uma reverência antecipada ao último morto daquele dia traduzido em finitudes e inaugurações.

Deitou o tronco no leito do riacho que perdeu o viço. Não terminou a tarefa. As máquinas canalizavam o córrego e Suirá voltou ao terreiro onde sumira sua oca e já os prédios brotavam. Plantou ali o tronco e suas cores. Dançava, tocava o maracá, cantava um mantra pescado na memória mais profunda.

Primeiro foram os pés que se mudaram em raízes e se fincaram no chão já de pouco verde e quase todo tomado pelo preto do asfalto, pelos blocos de moradia.

Quando se deu o crepúsculo da nova tarde o penacho era uma copa generosa, frondosa. Suirá sentou sob a sombra farta para olhar o sol que morria. As máquinas e os homens seguiram quebrando o sossego da noite. A madrugada petrificou o coração de Suirá.

A manhã raiou com a mudança dos primeiros moradores. Eram homens, mulheres, meninos e meninas apessoados, educados, todos encantados com a homenagem aos índios que um dia moraram no lugar. Suirá, perene e sem história, petrificado sob a sombra de uma árvore imensa.


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