02h17

De MAURÍCIO DE ALMEIDA.

Não cala a boca a maldita noite inteira é nhéenhé e eu chacoalho e chacoalho mas o Rogério só resmunga

− não enche

e se vira e ronca enquanto lá no canto do quarto é nhéenhé e quase falta fôlego eu percebo que quase falta mas nunca acaba nunca falta nhé nem fôlego e nem ronco e por isso tenho eu de levantar tenho eu de me arrastar quando tudo dorme menos o nhé maldito e maldita eu por ter parido aquele nhéenhé alto que quase perde o fôlego mas não perde maldita eu por ter levantado quando o Rogério dorme

− não enche

maldito filhodaputa que só ronca e goza vida fácil essa de sonhar e gozar vida fácil essa cheia de vagabundas enquanto a madrugada cheia de nhé é minha no meu colo gordo feio que não serve pra nada porque continua nhéenhé pelo quarto nhé pela sala e pela casa e pelo bairro inteiro nhé e volto pra cama

− não enche

e eu puta porque é nhé na minha orelha e não agüento mais isso não agüento nem ficar em pé nem sentada quando queria era encher de fogo essa merda de sala essa merda de casa e bairro chacoalhar o álcool bem no ronco e afundar um cigarro acesso e correr e fugir mas acendo o cigarro longe do álcool e deixo o ronco a sala a casa e o bairro dormirem acendo o cigarro e nem com a fumaça perde o fôlego quem dera eu cuspir nhés quem dera eu deitar e gozar e dormir feito uma maldita filhadaputa de vida fácil que não se importa nem com roncos

− não enche

nem com nhés nem com fogo nem com nada quem dera dormir um tanto só quase nada um cochilo que esquece a força dos dedos

− não enche

um cochilo

− não enche

feito esse que nem mesmo a fumaça vinda do carpete nem o nhé ou o ronco do Rogério podem atrapalhar.

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