Adoração

De PRISCA AGUSTONI.

……………Nossos corpos, navios desancorados.

Teus braços de águia, os olhos oblíquos a encobrir as palavras que reconheço, alojadas no teu jeito de ausentar-te, enquanto danço, sem pele, diante de ti.
Palavras opacas e abertas como pernas à espera, na escuridão de um ato de reconciliação. Palavras que retificam a nossa falha (um dois três, avanço sobre ti, um dois três, me ausento, um dois três, me disfarço, um dois três, me perco): linguagem que recalca uma seqüência de mãos a tatear, a conter pensamentos: os filhos que não vieram, continuam pedindo uma trégua.

……………Nossas pupilas, margens desancoradas.

Em plena noite, o corpo – que reinventa o quarto – é um facho de luz: resvalam, sobre ele, os dias de recusa.

……………Atrás do sono, como fruta no vinho, macera a vagarosa dor.


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