De linhas e omoplatas (final)

De DHEYNE DE SOUZA.

(Anteriores: IIIIIIIV)

Caminha para a janela e cola o olhar às entranhas.

Busca um enredo para si, personagem, verbo, alegoria, o que for. Mal vê carros.

Remove dali, entranha, diamantes postiços, raízes caluniadas, postes mortos e cose na usina dos meios-fios as meias-vidas dos poros, das palavras, dos becos interrompidos.

Rega aos poucos as paredes do próprio intestino com flores recém colhidas, que morrerão com o sol. Neste momento é só ela e ela está só, narrando historinhas para um sono perene, quiçá de paz, crivado de esperas epitáfias, que sequer de enfeite covas.

A chuva ameaça, os carros, a própria brisa que lhe pisca à retina. Todas as imagens resvalam longe, nos planos negros, postes à rua.

A noite veste-se verídica. Não há sonhos, de imensos e ilusões. O passado de agora revolta. Não pesca uma imagem contínua, certificada de tempo, espaço, pele. Pra que lhe serve a vidraça? Seu olhar é que embota. O resto é nítido.

Como se tocasse o breu, a angústia, as linhas da janela. Percorre o itinerário que lhes é prometido, à beira do céu, a balsa do inferno, a ilusão do porvir na poeira do vidro. Reflete a bruma. O mar e as margens são uma só cratera pisada, desenvoltos, nus, sem membranas, dispersos no sexo, apurando o orvalho, onda falsa.

Todas as linhas, ou omoplatas, caçam um ponto, senão uma curva.

Um pulo dali para a morte.

Abre a janela e depõe-se, poesia bruta.

Não há mais corpo, por fim.

Pendida, uma escápula de silêncio.

Ao chão, um escapulário roto.


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