Happy hour

De ANDRÉ DE LEONES.

O cachorro latindo no fim da rua é e não é o mesmo cachorro de antes. A casa vazia é e não é a mesma casa vazia. A casa e os objetos e os móveis são os mesmos e, ao mesmo tempo, não são os mesmos.

Não depois do que aconteceu.

Deitada no sofá após um dia cheio no trabalho, ainda em seu uniforme de enfermeira, olha para o teto e pensa:

“Do avesso.”

Junto ao sofá, no chão, o copo com uísque pela metade não diz absolutamente nada.

Saiu para trabalhar logo cedo e, quando afinal voltou para casa, nada, evidentemente, estava como antes. Como se tudo (paredes, objetos, móveis) tivesse sido tirado e desmontado e depois remontado e recolocado nos mesmos lugares e só ela fosse capaz de perceber (mas não de compreender, não de explicar) que tudo fora tirado e desmontado e depois remontado e recolocado nos mesmos lugares e, em função desse processo, as coisas deixaram de ser as mesmas coisas, tornaram-se outras coisas.

Uma brincadeira insana. Algo tão maior do que ela.

As mesmas coisas deixaram de ser as mesmas coisas. Ela deixou de reconhecê-las e, inversamente, deixou de ser reconhecida por elas. Passou a sentir-se uma estrangeira dentro de casa, dentro de si, tendo de se virar com aqueles objetos alienígenas. Um estranhamento de tudo e de todos instalou-se nela, criou raízes, cresceu. O acontecido reinstaurou seu mundo, revestindo-o de uma impessoalidade gritante e, em função disso, tornando-o familiarmente irreconhecível.

Ela nasceu outra vez, só que do avesso, e no avesso de tudo.

Deitada no sofá após um dia cheio no trabalho, ainda vestida com seu uniforme de enfermeira, olha para o teto e pensa em seu corpo. No que aconteceu o que aconteceu, seis horas atrás, sentiu-se desmembrada e eviscerada e depois remontada, ossos e vísceras e órgãos e membros retirados e depois reinstalados, reacomodados.

A exemplo de todo o resto, ela é e não é.

Deitada no sofá, fecha os olhos e pensa nas únicas coisas que sente ainda ser possível tocar de alguma forma: seus pacientes. Muito ou pouco arrebentados, eles irrompem no hospital dia após dia, ainda pulsando, olhos arregalados, desesperadamente agarrados à vida, as mesmas falas, sempre dizendo as mesmas coisas, quando conseguem.

Não me deixa morrer. Segura a minha mão. Eu vou ficar bem? Como é que eu estou? E sempre perguntando por alguém. E meus pais? Minha mulher? Meu marido? Meus filhos? Meu Deus?

De alguma forma, eles estão vivos. Mesmo quando morrem debaixo das vistas dela. Sob os cuidados dela. Apesar dela. Mesmo mortos, eles estão vivos. Mesmo mortos, eles vivem. E ela os toca, cuida deles, cerra suas pálpebras. Eles, os pacientes, as únicas coisas que continuam sendo, apenas. Sem quaisquer complicações.

Ela pensa no acidente daquela manhã, dois carros e uma motocicleta, na Goiás com a Paranaíba. Um homem atravessou o pára-brisa e se estatelou no asfalto. Um garoto e sua moto arremessados, o garoto morreu, está morto, a coluna quebrada em vários lugares, o pescoço, tudo quebrado, sangue e massa encefálica no asfalto (estava usando um velho capacete, o velho capacete se rachou), sangue e massa encefálica que ela não viu, mas sobre os quais ouviu um dos bombeiros comentar com outra enfermeira e instantaneamente a sua cabeça fez o caminho (obrigatório? inescapável? previsível?) esperado e (sangue, massa encefálica) seus lábios se moveram para murmurar:

“Meu Deus.”

Atendia o motorista do segundo carro (o outro motorista, o que atravessou o pára-brisa e se estatelou no asfalto, morreu a caminho do hospital) (as pessoas estão o tempo todo morrendo a caminho do hospital), ele dera com a boca no volante e levara consigo alguns dos dentes para o hospital, enegrecidos, imundos, no bolso da camisa.

“Melhor jogar isso fora”, disse a ele, que retorquiu:

“Por quê?”

Ela sentiu vontade de rir. Ele (ela imaginou) por certo se lembrou da história do sujeito que teve o pênis cortado pela esposa e depois conseguiu tê-lo reimplantado e chegou até mesmo a estrelar filmes pornográficos.

O pênis, os dentes.

Ela sentiu vontade de rir porque imaginou o motorista do segundo carro estrelando um comercial de pasta dental ou de plano de saúde odontológico com seus dentes reimplantados, um sorriso de coisa quebrada e colada, rasgada e recosturada, um sorriso frankensteiniano feito o mundo.

O diretor a chamou em sua sala, trancou a porta, e eles não conversaram.

“Não me diga que não gostou”, ele disse, depois.

O mundo, ela se ajeita no sofá, busca o copo com uísque, o mundo eviscerado e reeviscerado, desmontado e remontado, rasgado e recosturado, desfeito e refeito.


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