Cantor de barzinho

De DANIELA MENDES.

Futucando a bunda ele encontra mais uma utilidade para a unha-palheta: fazer operação de carocinhos. Deve ser sua veia médica que pulsou muito menos que a artística. Seus carneiros já estão hipotecados e por isso não dá mais para contar com eles. Enquanto o sono não vem faz as contas de suas dívidas. Foi bom negócio alugar a falação da mamãe para pagar o aluguel deste mês. Mas um dia, ah, um dia, ele vira Djavan… E assim o sono começa a vir e a fome o esquece até de manhã. Fará uma visitinha a Tia Mindinha no asilo. Sempre rola uns biscoitinhos com café e é caridade, pô… A coitadinha tão sozinha! De noite toca no Geraldo, reencontrar amigos… Eh! No sábado confirmou lá na Virginia, dá uns figurões. Se o sucesso não o encontrar pelo menos ele vai tentar uma gatinha. Será que um dia a vida cansa? Vai perguntar para o seu gato (que tem mais seis além de uma) e sabe viver desempregado. Quando fazia faculdade ninguém o chamava assim. E por pensar nisso, tem que ir na casa do Rafael pedir a caridade dele lhe fazer uns cartazes de aula particular de matemática no computador. De violão não deu ibope. Mas quando começar a tocar Jorge Vercilo… Ah, alguma coisa vai acontecer… Sei não, olha lá… Ria-se ensaiando mistério… Quando a mãe falasse orgulhosa dele naquele depoimento do Faustão ele não ia se agüentar: choraria no ombro da namorada – Débora Secco! E o Brasil inteiro descobrindo o quanto ele é humilde. Abraça o travesseiro esperançoso e cantarola: Amanhã, será um novo dia! Essa é boa! Essa é boa! Vou colocar no repertório.


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