No divã, com Freud

De LÚCIA BETTENCOURT.

Era sua primeira consulta, com aquele médico de bigodes espessos e olhos penetrantes. Ela estava nervosa, sentia o espartilho apertando, seus seios arfavam e ela transpirava. Seu suor começava a manchar as mangas de sua blusa de gola , cheia de nervuras. Pegou o lenço preso no cinto e enxugou a testa e o pescoço, discretamente. Olhou ao redor do consultório, procurando onde sentar. O ambiente escuro não lhe permitia ver muito. Tudo o que se destacava na obscuridade era uma poltrona de costas altas e um divã. No ambiente sombrio, ela mal via os olhos atentos que a observavam hesitar, encaixados no fundo da poltrona, sobre pernas cruzadas ostentando calças de flanela escuras e um tronco franzino, envolto em um surrado paletó de tweed. Finalmente, acostumando-se à escuridão, ela percebeu que o único lugar vago da sala era o divã, coberto de uma tapeçaria antiga, com um ar levemente empoeirado. Sentou-se.

A voz, cava, convidou-a a deitar-se. Obediente, ela reclinou-se, pouco à vontade, o corpo endurecido pelas talas do espartilho curvando-se em dores e apertos. Levantou os pés, encapsulados no mais fino marroquim vermelho, ajeitou as saias de tafetá farfalhante, e ficou naquela posição artificial, com o coração acelerado alojado em sua garganta.

– E então? Conte-me seus sonhos. – convidou-a a voz, profunda, desmaterializada.

– Meus sonhos? Talvez fosse melhor referir-se a eles como pesadelos…

– Conte-me, então, seus pesadelos!

– Ultimamente, só tenho um; sempre o mesmo.

– E como é esse pesadelo?

Ela hesitou, antes de iniciar a narrativa. Como dar ordem a um sonho terrível, que irrompia em sua mente sem uma sequência lógica, sem conexões e coerências?

– Bem, basicamente, eu sonho que caio num buraco.

Uma pausa, que se prolongou além do tempo confortável. Ela não conseguia continuar. A voz não lhe dava indicações de como prosseguir. Seu corpo a incomodava, naquela posição estranha, rígida, desconfortável. Resolveu se acomodar melhor. Puxou um pouco as saias, ajeitou os quadris, acomodou o tronco numa almofada. Seu coração pareceu voltar para o lugar apropriado. Conseguiu respirar mais aliviada. Enxugando o suor da testa, com o lenço rendado, ela prosseguiu.

– Estou numa cidade estranha, num país que desconheço. Então, não sei como, caio num buraco, que eu nem tinha percebido que estava ali.

A voz lhe perguntou:

– O fumo lhe incomoda?

– Não, não me incomoda em absoluto. Em minha casa todos fumam.

Ela escutou um fósforo sendo riscado e em seguida suas naridas fremeram com o cheiro ardido do fumo do Havana.

– Continue, por favor – comandou a voz. Em seguida, um pigarro estremeceu o ar.

– Bem, e eu fico ali dentro por três dias, três dias inteiros! E ninguém me ajuda a sair de dentro desse buraco, um lugar fétido, de chão enlameado, com canos passando ao longo das paredes…

– E com o que a senhora associa essa caverna?

– Mas não se trata de uma caverna, é um buraco feito pelo homem, com paredes de pedra, uma espécie de galeria…

– Não seria uma tumba?

– Não, eu não disse isso! Trata-se de um buraco, como uma espécie de galeria de esgotos, é isso! Não que eu tenha ido a uma galeria de esgotos, antes. Mas acho que é assim que uma galeria de esgotos deve ser.

– Isso a incomoda, a sufoca?

– Sim. Ou não. Não sei direito. Na verdade, o que me incomoda mesmo é o fato de que tudo isso acontece num país tão distante, com uma língua tão diferente. Eu estou ali, embaixo da terra, e escuto as pessoas falando, e é como se elas estivessem cantando.

Nenhuma reação. Somente o cheiro do charuto, que se intensificava de tempos em tempos, revelava que o dono da voz continuava ali, incrustrado na poltrona. Finalmente, uma pergunta:

– E o que dizem as pessoas?

– Não sei. Não entendo. É uma língua estrangeira. E eu fico ali dentro do buraco, três dias inteiros, caminhando, à procura de uma saída. Sinto frio, sinto calor, sinto fome e sede, não tenho como descansar, pois não encontro um lugar seco onde deitar. Eu caminho durante três dias inteiros, escutando as vozes, que parecem cânticos. E aí eu acordo.

– Nada mais?

– Nada mais. Na noite seguinte, outra vez o mesmo sonho. Todas as noites. E isso me impede de descansar, acordo cansada como se tivesse passado a noite toda caminhando…

– Bem, sua hora acabou. Retorne amanhã, neste mesmo horário.

– Só isso? O senhor nãovai me dar um remédio, nenhuma coisa para me ajudar a esquecer esse pesadelo horrível?

– Volte amanhã.

A mulher levantou-se, à custo. Endireitou o busto, desamassou as saias e saiu, com toda a dignidade que conseguiu reunir. Fechou a porta do consultório atrás de si. Desceu as escadas estreitas e sentiu-se estremecer ao pisar outra vez na rua.

Deu alguns passos apressados e, ao atravessar a rua, seu corpo pareceu desmaterializar-se no ar. Tinha sido tragado por um bueiro aberto.

No dia seguinte, no horário marcado, o consultório ficou vazio.

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