03h29

De MAURÍCIO DE ALMEIDA.

− De repente shhhh e mais nada – disse o homem sentado na poltrona –, só um tanto de susto e o quarto escuro e todos os quadrinhos das palavras cruzadas ficaram pretos como se nenhuma palavra mais servisse, parecia mesmo não existir documento comprobatório da inscrição no cadastro de pessoas físicas três letras 7 vertical ou as inicias do escritor francês Dumas duas letras 5 horizontal, de repente todas as palavras sumiram e agora apenas um silêncio imenso shhhh uma solidão muda sem iniciais nem escritores franceses nem documentos comprobatórios ou cadastro de pessoas físicas ou qualquer coisa porque palavra alguma serve, uma solidão sai daí agora que de repente devolve ao menos algum sentido ao mundo.

– Era um som bem baixo mas contínuo – disse a mulher deitada na cama –, um ruído quase imperceptível não fosse o verde neon dos números e dos dois pontos empilhados que piscavam e piscavam e aquele sonzinho quase nada que pulava dos números e dos pontos atormentando meu sono que não vinha mesmo eu quieta, eu quase dormia não fosse aquele ruidinho que graças a deus sumiu, graças a deus o verde neon se apagou, graças talvez a deus também o sono ainda assim não venha, mesmo sem os números e os pontos que de algum modo parecem continuar longe, os números e os pontos que não existem mas me mostram agora sai daí agora aos gritos a besteira de acreditar que, por um descuido, eu pudesse fugir do que é inevitável.

– Eu sinto que de repente não tem mais luz, eu sinto – disse o homem em pé no meio da sala – os móveis em silêncio as cortinas fechadas e o vão das portas, eu sinto a escuridão como se a escuridão da noite de repente tomasse tudo onde estava antes apenas o silêncio dos móveis (agora mudos como se mortos), as cortinas fechadas (agora como se pesassem toneladas) e o vão das portas (como se não fossem portas mas muros), eu sinto que não tem mais luz por esse peso repentino das coisas, sinto a escuridão tão de repente que meus olhos, independente de abertos ou fechados, pressentem um incômodo um desconforto uma espécie de sonho (ago sai daí agor) no qual não sei se estou vivo ou morto.

– Arfarf os cachorros arfarf andando em bandos abanando os rabos – disse o menino encostado num muro – os cachorros arfarf revirando lixos e correndo com medo do sumiço da luz do poste correm e não me vêem e não vêem outros passos que passam correndo por mim sai sai sai agora e depois outros cachorros arfarf e mais outros passos mas esses com seus próprios postes porque aqueles postes não iluminam mais esses passos correm sai daí e rabiscam a noite com suas luzes sai daí mas não vou a lugar nenhum sai daí agora fico quieto escondido encolhido com os cachorros arfarf que não ligam para mim.

– Sai daí, sai daí agora, seu lunático filhodumaputa – gritou o policial com uma lanterna na mão – desocupado que não tem mais o que fazer, sai daí, desce dessa torre antes que lhe fritem com os megawatts de energia elétrica, desce daí agora e nem pense em se jogar, nem pense em cair, olha aqui para minha cara e desça devagar, pode vir que não vou lhe prender, muito embora queira lhe encher de porrada para não ficar com frescura suicida, muito muito embora queira eu me dependurar numa torre de energia, engolir o cano de um revólver e sumir, mesmo sabendo que bala no céu da boca não enfia estrela nos olhos de ninguém.

– Não adianta, não adianta – gritou o rapaz do alto da torre –, não adianta desligarem a energia e me negarem esses megawatts inúteis de luz porque daqui de cima não saio daqui de cima eu pulo e foda-se a eletricidade e os megawatts de energia foda-se a luz porque eu quero é mais que vocês se enfiem nesse silêncio nessa escuridão nesse desterro que sou eu quero mais é que se enterrem debaixo da cama e fechem os olhos porque daqui de cima mesmo sem todos os seus megawatts de energia e luz daqui de cima eu pulo e num estouro meu corpo acenderá uma constelação.


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