Arena para gatos

De SUSANA FUENTES.

Arena para gatos. Foi o que estava escrito com massa de pão, quando Lúcia, faxineira de dona Vitória, entrou certa vez na cozinha. Primeiro tentou entender a letra, depois pensou quem o teria feito. O gato agora tinha dado para escrever. Foi só depois de um tempo que Lúcia viu que arena não se tratava de picadeiro, mas de areia, arena, escrito em espanhol, no saco de areia que deveria completar a bacia após a limpeza diária. A frase então havia sido copiada do saco. Lúcia tinha se atrasado desta vez, na fila do supermercado, e se os gatos gostam de preservar os hábitos, este já dava falta da sua bacia limpa. Este gato danado… bem que a dona Vitória disse que era inteligente. Mas se é para escrever, porque não escreve outra coisa? Lúcia desde que começou a falar com o gato dava para fazer filosofias. De que me adianta um bicho tão sabido, se puxa assunto tão bobo? Um pequeno atraso não quer dizer que me esqueci. Vou já trocar a areia. Durante a faxina, o gato acompanhava cada detalhe. Lúcia de novo falou olhando para o bichano, que a fitava com ares de nariz torcido: as geléias nos supermercados estão um horror de caras. Todas importadas, ué, cadê os vidrinhos nacionais? Você sabe o que andam fazendo? Eles (ela se referia a eles, quando queria mostrar-se indignada na fila do supermercado ou na fila do banco… eles!) eles escondem o doce de goiaba da casa no alto das prateleiras. É, para ninguém comprar … e todo mundo se virar com geléias com o preço pela hora da morte. E o meu suquinho de caju? Tiraram da prateleira o mais barato. Você acha que é por acaso? Não é! Voltei lá. Peguei a única garrafa que tinha, só botaram uma. Aí Lúcia parou um pouco, olhou para o lado com ar de reminiscências e tomou sua decisão: uma hora volto a fazer geléia, senão esqueço o caminho. Eu que me cuide, senão…!

E colocando a massa crescida no forno, olhando os desenhos que se formaram enquanto as deixou descansar, Lúcia continuou a pensar alto: Ele não poderia ter escrito o que pensa um gato, ou se entendem nossas conversas… e se têm uma língua secreta? Se vê a nós, os humanos, ou pelo menos a mim, Lúcia, colorido? Se fosse nos desenhar, seria com bigodes, à sua imagem e semelhança? Mas… eu sei o que anda pensando este gato, com este olho atrevido… Ele anda com raiva do fio que dona Vitória mandou passar por detrás da geladeira. O fio do interfone. Já coloquei fita preta isolante, mas ele sobe na geladeira e arranca. Daí coloquei fita transparente. Mas ele não é bobo não, viu que ali tinha coisa. Agora ele que tenha paciência com suas investiduras. Coloquei a canaleta, não tem mais como arrancar este fio não.

Tira o gato, põe a mesa. O que Lúcia não sabia era que o neto de dona Vitória tinha começado a escrever. Tudo ele queria ler, obcecado com as letras que invadiam seus livros no armário, livros onde até então só existiam figuras. Às vezes escrevia o que lia, e naquela época os produtos mais em conta vinham da Argentina. Ali estava, no pacote em espanhol: arena para gatos. Na nota de compras, as letras, antes aborrecidas, começavam a ganhar destaque na caligrafia. As letras que até então não enfeitavam tanto a caderneta.

Lúcia olhava o gato para dizer: este gato está me saindo muito bom escrevinhador! A massa aparecia em palavras variadas, em forma de trança e espinha de peixe. Também lá estava o retrato do gato, ele mesmo, com o detalhe dos bigodes enrolados, como ficaram depois de se aproximar perigosamente da boca do fogão, derretendo-lhe as pontas dos bigodes. Assemelhava-se a um desenho art nouveau, como o portão de borboleta do Castelinho do Flamengo. A graça estava em escrever não apenas o que lhe aparecia na mente, mas com o que lhe aparecia na frente. Na letra espantada do menino peralta que puxava o fio das coisas.


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