Não suba na árvore

Crônica de PEDRO PONCE DE LEONES.

Não suba na árvore. Por mais que seus netos insistam. Mesmo que demonstrem o quanto é fácil, subindo e descendo com agilidade, não suba na árvore. Na verdade, o que eles querem é que você suba. Se conseguir, uma vez lá em cima, além do cansaço pelo esforço de vencer a gravidade e algum sintoma de vertigem, você estará em sérios apuros. Enquanto não for revogada a lei da gravidade, tudo que sobe tem que descer. E é aí que começarão os seus problemas. Seus netos descerão com a agilidade de pássaros, enquanto você continuará por lá, disfarçadamente, como se estivesse apreciando a paisagem vista lá de cima. Na verdade, você estará tentando se lembrar onde pisou para subir. Em qual galho se segurou e, gemendo, conseguiu chegar ao topo. Você não cometerá a imprudência de ir até onde os meninos foram. Onde eles chegaram você chegaria se tivesse meio século a menos na sua idade. Por outro lado, para ir até onde os seus netos foram, você teria que ter mais leveza corporal, não os setenta e cinco quilos que dolorosamente tirou do chão. Mas eles o tapearam e você subiu. Lá em cima, depois que a respiração e os batimentos cardíacos voltaram ao normal, você começará a mandar mais oxigênio para o cérebro e raciocinando com mais clareza, perceberá que os seus netos queriam mesmo era uma oportunidade para chamar os bombeiros. O fato aconteceu comigo, não com o vizinho. Felizmente, preservando a minha mirrada dignidade, não cheguei a figurar no boletim de ocorrência dos bombeiros. Remexendo na memória reencontrei um garoto de 12 anos que subia em todas as árvores com uma destreza felina. Incentivado com os gritos de “Vem vovô, é moleza!”, encarei o desafio. A imprudência venceu o bom senso. E lá fui eu, decolando trêmulo – como o sucatão, que até pouco tempo levava o presidente nas suas viagens. Toda criança adora ver os bombeiros em ação numa operação de resgate. Vencendo todas as dificuldades impostas pela idade, depois de muita concentração, consegui chegar à terra firme ileso, resfolegante, mas intacto. Uma vez no chão, de onde eu não deveria ter saído, contudo, dominou-me indisfarçável alegria. Alegria de haver compartilhado com os pequenos a aventura singela de uma infância distante. Restabelecida a normalidade cárdio-respiratória, restou o contentamento de haver atendido o chamado dos netos. O que um avô não faz pelos netos…

De qualquer forma, desaconselho a prática desse esporte radical para os desportistas que já integram o time da terceira idade. Como a advertência que ouvimos nos programas de televisão, não tente fazer isso em casa, ou melhor, em lugar nenhum. Não suba na árvore.

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