O primeiro tiro

De DANIELA DOS SANTOS.

Sempre quis ser famoso. Pensava em aparecendo na Globo, dando entrevista no Jornal Nacional. William Bonner dizendo seu nome. Não, melhor a Fátima. Ela é muito mais simpática. Nunca faria futilidades televisivas. Jamais! Nada de novelas ou Vídeo Show. Talvez Ana Maria. Seria entrevistado na mesa de café da manhã, muita dona de casa vendo, as vizinhas da sua mãe vendo. Ele falando grave e sério, driblando a superficialidade da Ana Maria, ganhava respeito até do Louro José. Falaria a comeria o café da manhã. Ah, o café da manhã!

O café da manhã já passara há horas (dez horas). Há cem horas agonizava em seu apartamento. Tão perto das câmeras, tão longe da fama. E toda hora a Fátima falava em Santo André. Toda hora mostravam seu prédio. O tapete de ursinho que a mulher tinha pendurado no parapeito pra secar.

Toda hora, em todos os canais. Uma loucura! Mas eles não sabem o que é isso aqui de verdade. Não fazem idéia. É toda hora gente gritando, tiro, xingamento, sem contar as perguntas. Céus, quantas perguntas! Nem sabia que tanta gente assim sabia onde ele morava. Os repórteres sabiam. Viam ele entrar e sair do prédio, mas não perguntavam nada. Passou cinco dias esperando. Sabia que no dia seguinte Fátima diria seu nome assim que um repórter perguntasse alguma coisa pra ele.

Cara, onde é o restaurante limpinho mais perto daqui? Foi a única pergunta que fizeram, ainda na segunda-feira, e ele nem sabia o que estava acontecendo, nem poderia, mesmo, dar entrevista.

Cem horas. Nossa, como é que eles estão agüentando? Eu não agüento mais! Não agüentava e pensou em quando o Jica, na quarta série, matou o ratinho com uma agulha. Não agüentava mais.

Fechou os olhos.

A pressão só aumentou. O ratinho cinza guinchando na mão do Jica, que não parava nem aluía. Contaria isso pra Ana Maria? Não, de jeito nenhum. Na hora do café da manhã, tem criança que assiste, vai que elas inventam de fazer igual. Os olhos fechados e a pressão aumentando.

Abriu os olhos com pressa, mas já era tarde. Já tinha chutado a porta do guarda-roupa, que balançou e quase caiu. Muito barulho. Acho que todo mundo ouviu.

Ele mesmo ouviu. Muito mais barulho, o prédio treme e atira. Acima de sua cabeça, mais tiros. Não agüentava mais.

Queria poder acabar com aquilo. Queria poder fazer alguma coisa pra acabar com aquilo. A pressão só aumentando.

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