Silêncios e sons

De LEANDRO RESENDE.

O cara tava quieto. E sozinho, porque ele morava só, e, no fim de semana, fazia poucas coisas além dos atos primitivos de comer, respirar, cagar e assistir TV. Estava procurando algo para comer dentro da velha geladeira vermelha e sempre vazia. De repente, ficou surdo. Sumiu o som monstruoso do motor da idosa geladeira, e do rádio ligado na sala, e das marretas e das britadeiras da construção do prédio no outro lado da rua e das buzinas e aceleradas e freadas dos carros.

Foi abaixando o volume, abaixando, abaixando e flummmm!!!!!!!!!!!

Ficou só um leve ruído de televisão fora do ar, que também foi sumindo, sumindo. Sumiu tudo, todo som.

Ficou surdo.

Enlouqueceu.

E passou a andar desentendido, balançando a cabeça – como se os fios pudessem se reconectar ­– e nada. Gritou e nada. Sem som e nada. Era um silêncio que doía. Batia palmas, estralava os dedos. Estava ensurdecido. Suava de pavor. E assoviava, ria (simulava risos e gargalhas). Pensava que o riso furaria o silêncio. Quanto mais surdo, mais forçava o riso, o grito, as palmas.

Pior foi falar (e não se ouvir). Sentir o gesto da boca arremessar palavras sem tinta para fora, para o silêncio do mundo. Falava e nada. Desenhava as palavras dentro da boca e quando saía, estavam completamente invisíveis (e inaudíveis).

Os vizinhos nem se preocuparam tanto, pois aquele pardieiro só tinha aloprados e putas barulhentas. Ah, tinha no terceiro andar uma velhinha surda e, no mesmo andar, outra velhinha que ouvia muito mal.

Desesperou-se e desceu correndo as escadas, ainda sem ouvir seus passos, e as que chaves balançarem, e as luzes acendendo sozinhas, e o tropeção no saco de lixo, e o tombo. Tudo aconteceu mudo, como se Deus abaixasse o volume (apertasse a tecla mudo no controle remoto) para atender ao telefone e o mundo de Deivid tivesse apenas movimentos.

No fim das escadas, já no portão do prédio, voltou. O som voltou. O prédio não tinha portaria, nem porteiro ou garagem. Só uma escada, um corredor por andar e um portão de grade para entrar. Ah, e um interfone que vivia estragado. Voltou a ouvir quando ele já estava agarrado no portão, balançando-o para tirar dele qualquer som, mínimo que fosse. Algumas pessoas que passavam, pararam e buscavam explicações naquela cena. Voltou, o som voltou, gritou.

* * *

Dois anos depois, voltou a acontecer. Mas ficou menos preocupado. Tinha a convicção de que o som iria voltar. E voltou. Como morava sozinho, não conversava com quase ninguém, foi se acostumando com esse silêncio.

De tempos em tempos, o silêncio voltava.

Deivid, que nunca foi ao médico ou fez um exame para descobrir a origem das interrupções, acostumou-se com estas alterações entre som e silêncio. Dizia a si mesmo que era o seu momento de reflexão interna e não adiantava lutar contra ela. “Quando paro para me ouvir por dentro. Todo mundo deveria ter este privilégio.”


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