Um presente guardado

De MAURÍCIO MELO JÚNIOR.

Ângela, a que dormia a solidão dos sedativos, perdera todos os sonhos. Se houvesse consciência em seu delírio branco, lembraria partes da vida, momentos perdidos e achados, enquanto o marido fuma no jardim de inverno do hospital. A agonia de voltar ao antigo vício depois de anos longe de fumaças e tragadas, uma vida saudável de corridas diárias, academia, tênis com os amigos, um uísque social, nenhuma leitura, as revistas semanais intocadas, o jornal assinado para saber a programação dos filmes ganhadores de Oscar, das peças com atores da moda, as cirurgias com hora marcada, a segurança de quem conseguiu fama e fortuna cortando e moldando carnes abastadas, oito horas de sono por noite, longe os onze anos de estudos disciplinados, as noites insones nos plantões de emergências, o residente esforçado obrigado ao contato com gente estranha como Parreco – lembrava bem o apelido –, a mulher espancada pelo namorado violente, inquieto com seus pudores, pois tinham feito de tudo, se beijaram, se lamberam, ela chupou seu pau, ele meteu em sua bunda, mas de nada adiantaram os pedidos, só daria a boceta, o cabaço depois do casamento, aquilo era honra e glória para se guardar, para presentear o marido, o amor perfeito, e Bismarchi, o doutor Bismarchi, o cirurgião plástico iniciante submetido às ordens de um médico experiente, tinha hoje outra vida – budismo, permacultura, ioga – seguida a risca, manipulada por Ângela – a que o amara na primeira cirurgia – agora entre tubos, remédios e sustos constantes. E ele na impotência, na inquietude, no cigarro, no tontear suave, com ânsia de vômito imposta pelas tragadas.

Ela, Ângela, linda e serena, como se dormisse, precisava acordar e retomar a vida quieta, com chalé suíço na serra, chá com torradas nas tardes frias, fondue e vinho nas noites, a lareira queimando lenha, sem filhos por perto, os dois aos cuidados de uma babá de confiança; uma vida começada em sua primeira cirurgia, ainda com o médico experiente, o professor de Bismarchi.

Ela, Ângela, a modelo, nos momentos de lucidez e festa, lembrava bem o deitar inaugural na mesa de cirurgia, o professor chegando. Foi a última imagem que viu naquele dia: o professor e o jovem médico que parecia sorrir sob a máscara, um encanto enquanto aos poucos ela sesteava ao efeito da anestesia.

Foi ele, o doutor Bismarchi, quem abriu a camisola hospitalar e descobriu seus peitos ainda pequenos. Profissional, os acomodou nas mãos e fez uma breve incisão bem embaixo, próximo à costela. Sob o olhar de aprovação do professor, seguiu todo o procedimento regular. Perfeito.

Ângela lembraria outros fatos. Seus dezesseis anos e a paixão súbita por um vizinho. Pensou que o amaria para sempre. E correu léguas na busca daquele que mal olhava sua cara de poucas sardas, em formação. Tinha um corpo magro, seco, e quase nenhuma esperança, mas as pernas… Para não se derreter em todas as angústias usou sua ousadia mais intensa. O seduziu com as pernas longas e sensuais levantando ao máximo a saia colegial. O primeiro beijo num canto menos público do parque. Ali deitados ele suspendeu a saia inoportuna e jogou fora, sem sequer olhar, a calcinha vermelha que ela usava como instrumento de sedução. Obedecendo ao instinto, literalmente a comeu. Acabou o trabalho de prazer individual no tempo de quem tem pressa e exibe poder. Ajeitaram-se como possível. Ela vestiu a calcinha vermelha onde prendeu o lenço que, inútil, segurava o sangue. Não sentia nada, nem emoção nem dor. Tinha perdido aquilo que pensou ser paixão. Deixou-se abraçar. Deixou-se levar em casa. Ainda permitiu o último beijo. Tomou um banho demorado e nunca mais o quis ver. Nunca atendeu seus chamados. Foi crescer, conquistar fama, deitar com outros homens. Aquilo, o gesto de nenhum amor, apenas a livrou de um incômodo. Já nem sabia se o antigo vizinho era vivo ou morto.

Importava sim, o médico, o doutor Bismarchi, o que fumava desesperado no jardim de inverno. Para ele voltou quarenta e duas outras vezes à mesa de cirurgia – broelift, aumento dos lábios, dimple mentoniano, subincisões para celulite, blefaroplastia, rinoplastia –, só numa vez com susto. Gluteoplastia com Bioplastic. Amava quando ele se debruçava com carícias sobre suas ancas. O azar de uma infecção hospitalar. Voltou à cirurgia três meses depois e corrigiu tudo. Tinha a bunda firme, empinada, bela, que ele gostava de acarinhar, beijar. Ele, a primeira visão que teve quando acordou da primeira cirurgia, radiante na inauguração dos peitos com uma prótese de 200 mililitros.

Casaram-se há quase quinze anos com igreja, vestido branco e festa. Tiveram dois filhos. Ela fez sucesso. Ele fez sucesso. E seriam felizes para sempre, para incômodo de quem falava de suas tantas cirurgias. Sabia, à boca miúda ganhara um epíteto: A Esposa de Frankenstein. Tudo inveja. Tinha o marido ideal que freqüentemente a modelava e isso bastava. Por ele faria tudo. Para sentir a inveja corroer as que se diziam amigas e se torciam com seu sucesso, sua beleza, sua determinação. Todas as conquistas arrancadas à fórceps. Liberdade sexual, beleza física, a malacia feliz. Horas e horas de academia. Uma presença ousada, firme, promovendo aprovação em todos os testes, as aulas de teatro e ainda não tinha dezessete anos quando desfilou a coleção de inverno de uma butique local. O antigo vizinho na primeira fila. O olhou com indiferença, sem refletir o olhar de ciúme, arrependimento e inveja que ele lhe mandou. Seguiu pisando com elegância.

Tinha uma carreira. Capas de revistas, colunas sociais, fofocas, participação em programas de auditório, propagandas de xampu, desfiles beneficentes, um lado zen. A única com casamento sólido, sem medo da frieza dos hospitais.

Preparou com requinte o presente para os quinze anos de sua felicidade. Daria ao marido, com todo amor, o que entregara, enganada pela paixão, ao vizinho antigo. Tudo pronto para três dias de luxúria e tesão. Ficariam trancados, sozinhos e nus no chalé que reservava certo calor nesta época do ano, que não tinha vizinhos nem caseiros por pertos, onde podiam passear despidos pelos jardins bem cuidados, tomar banho na piscina de água natural. Todas as liberdades, todos os sonhos barrados no imprevisto do choque anafilático. O presente guardado – um hímen reconstituído – entre suas pernas, belas pernas imóveis. Até quando, meu Deus?

No jardim de inverno doutor Bismarchi acendeu mais um cigarro.


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