Uni-Ni-Du-Ni-Taú…

De LÚCIA BETTENCOURT.

João, o que foi esse barulho, menino?

Nada, não, mãe! Foi o Lavinho que despejou o caminhão dele no meu forte!

Mas o barulho foi muito grande…

É que ele despeja as pedrinhas do caminhão e fica gritando: seTUbal, seTUbal.

João! Pára com essa gritaria, menino! Isso parece um bombardeio!

Mas é isso que ele está fazendo, mãe… Bombardeando meu fortinho. Meus cavalinhos já estão todos soterrados. Os soldadinhos também já foram derrubados. Só sobraram as paredes…

Não chora, meu filho. Deixa que o papai conserta.

Mamãe, porque é que a senhora sempre convida o Lavinho para passar as férias de verão aqui no Rio?

É importante, meu filho. Vocês precisam aprender a conviver, têm que ser muito amiguinhos…

Mas eu não gosto dele, mamãe. Ele é muito maior que eu… Quebra minhas coisas… Estraga meus brinquedos…

Sim, mas ele também tem brinquedos, e te empresta.

Mas ele só quer brincar de Banco Imobiliário. E o tabuleiro dele só tem coisa lá de São Paulo. Eu não gosto.

Mas precisa aprender a gostar. É melhor ter a Av. Paulista que a Presidente Vargas!

Por quê?

Ah, isso eu não sei. Seu pai é que diz.

Mas eu nem sei onde ficam essas ruas…

Não são ruas, são Avenidas. E, para a gente ter alguma coisa, nem precisa saber onde fica. O bom é ter, e depois construir casas, edifícios, hotéis…

Eu queria construir um cinema…

Cinema? Acho que isso não tem no Banco Imobiliário, meu filho…

Ah, mas cinema é tão bacana… E museu! A gente bem que podia construir um museu, e botar uns quadros, bem coloridos, alegres.

Olha, acho melhor você construir um banco!

Banco, mãe?

É, um bem grande. E aí você empresta dinheiro para os outros jogadores, e cobra juros bem altos, e fica rico.

Mas eu já sou rico, mãe.

Shhh. Fala baixo. Rico bem-educado não fica dizendo que é rico…

Eu sei, mas o Lavinho vive dizendo que é rico e que vai ser ainda mais rico.

Isso é coisa de paulista, meu filho. Não liga, não. Eles são assim.

E o banco é sempre do dono do tabuleiro, e o tabuleiro é do Lavinho. Ele é o Banco.

Deixa, meu amor. Vou pedir ao papai para comprar um Banco Imobiliário para você, também. E com as ruas do Rio, para você gostar mais de jogar.

Ah, mãe, pede para ele me comprar uns quadros, também? A gente podia brincar de museu, pendurava ali na garagem, fazia inauguração…

Acho que seu pai não vai gostar…

Mas ia ser tão legal, a gente pedia para o Edinho pintar aquela babá dele, e para …

Chega, meu amor! Nossa! O que foi esse barulho, agora? Lavinho, o que é que você está aprontando aí fora?

Eu não fiz nada, tia, foi a vizinha que derrubou o cabide com as bolsas.

A minha bolsa caiu?

Caiu. Caíram todas as bolsas, mas não se preocupe não, tia. Eu dou um jeito. É só acabar aqui com o forte do João que já vou lá ajudar a subir com elas. Ó, já tô subindo!…


%d blogueiros gostam disto: