O dia da virada

De JORGE BARBOSA.

Seja lá o que for, tenha calma, muita calma. Você sabe da minha preocupação quando você sai para esses comícios. A tendência é que as coisas esquentem por aqui. Eles não vão admitir perder as eleições para um homem que até o mês passado era um mero desconhecido. Aqui é assim. Quando aparece um líder ou qualquer outra coisa parecida, não dura.

– Eu sei tia. Ontem, voltando da comunidade Aliança, notei que dois carros me seguiam. Tentei andar mais rápido, foi inútil. Resolvi encostar o carro e ver o que acontecia. Olhei pelo retrovisor, pararam e desligaram os faróis. Dei meia volta. Chegando lá, o pessoal do partido estava numa casa de farinha, iluminada por três bicos de luz. No final do prédio podia ouvir a zabumba, triângulo e a sanfona e mais dois homens que cantavam ao lado de duas caixas acústicas bastante velhas. Ninguém estava parado. Na mesa, só algumas senhoras segurando seus netinhos. Tive dificuldade de atravessar a casa de farinha, ansioso por encontrar um dos meus assessores. Vi que Valfrido estava em um quanto de parede, acompanhado de duas moças e um litro de cachaça, que já estava pela metade. Resolvi voltar, decepcionado. Como o principal candidato da oposição entra na festa promovida por ele e não é notado? Eu não vou morrer por estes putos! Resolvi ir na casa de um velho adversário. Samuel era um político experiente, uma raposa velha, governou a cidade por mais de vinte anos e, apesar de afastado, ainda dava as cartas.

A casa ficava no final da rua. Deixei o carro estacionado. Na área externa de sua casa dois cães mais raivosos do que o dono.

– Samuel, Samueeel! – gritava seu nome do forma desespera. Samuel aparece.

– Samuel é o seguinte: tem dois caras me seguindo. Você vai descer a serra comigo e voltar com eles.

– Você ta pensando o quê? Te vira!

– Te vira porra nenhuma! Querem me matar porque sabem que vão perder. Você e todo seu … – antes que pudesse terminar, o carro preto de vidros escuros encosta na calçada. Uma mulher alta que aparentava ter uns quarenta anos sai segurando uma arma. Enquanto isso, uma pessoa que estava do seu lado assume o volante.

– Entra no carro, vai, vai, vai, logo… – foi muito rápido, em alguns segundos estava sentado no banco de trás na mira de uma arma. Antes do carro sair bruscamente, escuto dois tiros, parecia ser um aviso porque logo em seguida escuto barulho de fogos de artifício. Não conseguia pronunciar uma palavra, minhas mãos começaram a ficar frias e a cabeça a rodar. Depois disso, só lembro de ter acordado por volta das cinco horas da manhã, com as costas na porta do meu carro. Levantei desorientado. A porta não estava travada, entrei e, assim que olhei o pára-brisa, recado escrito com batom:

eles iam te pegar porque estão com medo. imagine se soubessem quem realmente é você? por isso é que estão perdidos. por enquanto, não deixarei que nada aconteça a você mas no futuro resolveremos nossas contas pessoalmente.

– O que você andou aprontando?

– Não sei tia. Seja lá o que for tenho uma forte aliada política.

– Não acredite em anjos guardiões e nem muito menos em aliados políticos.

– Seu perfume não era de anjo e nem muito menos de quem quer proteger. Amanhã tudo vai estar em minhas mãos.


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