Quando cai da árvore uma fruta

De DENNY YANG.

Nao precisei ir em predestinadores: estava tudo la, na minha frente, para eu julgar o que estava acontecendo, os fatos e as verdades factuais, e eu nao precisava de ninguem para que me dissesse: assim foi o passado, e assim esta’ sendo o presente. Na verdade, o passado sempre estava presente, ate’ que eu transformasse o meu passado e meu presente em passado.

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Foram eles quem se aliaram a mim, me atraindo como se atrai um rato numa carapuca, mas eu nao era rato, eles mais quem eram, e nao deixariam eu julgar o passado da forma como ela merecia: a mais justa possivel.

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Peguei meus pertences e, como uma lente de aumento, organizei em meu quarto: as fotos estavam la’, no meu passado, os meus escritos estavam la’, no meu passado, meus sentimentos, estavam la’, em todos os meus objetos de escolha. Escolhi, e fiz as escolhas certas, as vezes as mais dificeis, as vezes as mais faceis. Sempre, porem, escolhas. Meu livro de citacoes, comprado numa livraria de livros usados, dizia na contracapa: “musico de reconhecido sucesso, autor de inumeros albuns etc, sua importancia na musica internacional etc, conhecido por ter dito, entre outras coisas etc, invejado e odiado por uns etc, amados por outros etc…”, nao quis ler o resto da contracapa, apenas fechei o livro e botei sobre a cama, eu deveria mudar as configuracoes de meu quarto.

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Eu queria, na verdade, levar todos os objetos que encontrei para bem longe daquele espaco, eu achava que o quarto era o problema, ou eu ali no quarto era o problema, mas no fundo, apenas as configuracoes poderiam me salvar. Arrumando o quarto, pude ver e entender que na minha propria vida, eu deveria mudar de configuracao, as coisas e objetos-subjetivos, a minha subjetividade, sem mudar, para tanto, a linguagem que ocorria no meu inconsciente ou na minha mente. Aquilo estava me sufocando, e eu nao queria vomitar tudo o que estava dentro de mim, que queria nascer uma coisa nova, uma nova ideia, uma nova configuracao, e respirei profundamente, eu nao iria vomitar aquilo, eu iria… mudar as configuracoes, como se muda a forma e o formato de um caleidoscopio para a forma e um formato de um refrigerante.

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Eu nao merecia isso, mas a questao estava longe de ter merito ou merecimento ou culpa ou castigo. O sentido transcedental de tudo aquilo que precisava ser mudado, pois a realidade batia na minha porta forte demais para que pudesse ser ignorado, era que eu precisava aceitar, que de tudo eu nao conseguia enxergar ampla e totalmente, o passado, ou mesmo a mim mesmo e meus sentimentos que estavam, agora, dispostos sobre minha cama de meu quarto, o sentido trasncedental era que eu estava amadurecendo, mudando de uma coisa que lutava para sobreviver para algo novo, e eu tinha sorte, era esse o sentido, eu tinha sorte de ter essa oportunidade de mudar a configuracao para algo novo, mais equilibrado, mais justo e imutavel, por conseguinte.

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Nao sei exatamente quais eram as causas, ou nao quero falar. Mas todo meu relato, aqui, deixa implicito a historia concreta de tudo o que me aconteceu e acometeu, para que eu precisasse conseguir mudar as configuracoes naquilo que nao podia ser chamado realidade, pois afinal de contas, eu acreditava – e continuava acreditando – que tudo o que a palavra “realidade” abarcava era nada mais, nada menos, que tudo o que acontecia para voce conseguir sobreviver: a sobrevivencia impunha a realidade a que precisavamos acreditar, viver, por mais que, no fundo, nao acreditassemos, apenas viviamos. A tradicao, enfim, tinha mais forca do que o momento e do que o presente, e ela, a tradicao, estava a meu lado.

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O meu quarto e os objetos-coisas que eu constantemente rearrumava e rearranjava, para ver o que e como eu mudaria ou reajustaria as coisas dentro de minha propria subjetividade concreta, me dizia” a tradicao esta’ a meu lado, mas mas preciso romper nao com minha tradicao, em termos maiusculos, e sim com minha… configuracao anterior, pois os fatos me diziam que o sistema paradigmatico de antes era incompativel com minha sobrevivencia atual, e portanto, eu precisava nao romper com o paradigma, ou com a realidade, anterior, e muito menos com a linguagem de minha historia pessoal inconsciente ou consciente, mas romper, o maximo possivel, com tudo aquilo que poderia ser colocado na categoria de…”.

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Meu quarto nao completou a frase, eu precisava de mais algum elemento para completar a frase criada pelo meu quarto, criado pelas novas configuracoes de meus objetos-pertences dentro de meu quarto, alem de meus proprios sentimentos momentaneos, alem da tradicao que me segurava como que um navio numa ancora enorme e pesada, alem talvez possivelmente alem daquele local fisico que era: meu quarto. Mas nunca alem de questionar da existencia daquele quarto, pois o quarto realmente existia e assim estava sendo o meu relato verdadeiro, dentro do que chamamos: realidade. Eu analisava, portanto, seriamente a possibilidade de sair daquele quarto, e analisava seriamente a possibilidade de levar comigo, para junto de onde for que eu fosse: uma sala, uma cozinha, uma nova cidade, dar para uma nova pessoa, dar para uma esquecida pessoa dar para uma celebre pessoa, um pai’s, um outro objeto, o mar… todos os elementos que configuravam aquele quarto. Mas o quarto, afinal de contas, tambem era um de meus objetos-pertences, e nao se poderia fazer a mudanca de um proprio quarto, eu nao queria ser incoerente na minha nova configuracao, deixaria um objeto de qualquer jeito, para que pegar outros e leva-los para quem ou qualquer lugar que fosse?

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Sai sozinho do quarto, preparado dai, para o mundo e os fatos do presente que me aguardavam, serem encarados e enfrentados… sem que eu precisasse mudar a linguagem de meus inconsciente, nem rompesse com minha tradicao que ainda era minha ancora.

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E so’ dai, a frase que meu quarto e as configuracoes de meu quarto dizia para mim mesmo se completou, dizia: “veja o passado por si mesmo”, e eu pensei: “uma frase, apenas, me ocorreu na minha cabeca, apenas uma frase”. A nova configuracao estava se dando, na velocidade mais rapida da luz, e todos sabiam disso, pois a energia que raditiava de todas as expressoes que eu expressava com meu corpo se propagava tao rapido que ate uma pessoa numa ilha deserta entenderia que eu, sim, tive minha configuracao mudada, e estava ja’ sendo construida. Nao precisava dar explicacoes, nao precisava sentir culpa, nao precisava sentir arrependimento, nao precisava ser perdoado por ninguem dentro dessa nova configuracao, nem perdoado pelos que deixava na configuracao anterior, afinal de contas, eu nao rompia com meus valores e principios, nem com a tradicao que me continuava servindo como ancora: a Historia. A interpretacao de minha Historia pessoal, como um historiador da Historia Mundial faz, sempre mudando as interpretacoes conforme o tempo passa, conforme o mundo muda, e conforme ele proprio cresce. Um sinal de apenas uma coisa: crescimento, mais construcao, e amadurecimento.

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O quarto e meus pertences, enfim, deixavam eu seguir meu proprio caminho.

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